Brasil e a arqueologia inglesa

A arqueologia inglesa passa por uma revolução silenciosa. Essa área da ciência, cujos dados eram garimpados lentamente por pesquisadores universitários munidos de pás e picaretas e financiados por dinheiro público, foi inundada por uma enxurrada de dados gerados pela iniciativa privada. Apesar de muitos arqueólogos questionarem a qualidade desses dados, outros demonstraram que eles podem revolucionar o que sabemos sobre o passado da Inglaterra. O interessante é que um fenômeno semelhante pode ocorrer com nosso conhecimento sobre a flora, a fauna e o meio ambiente no Brasil.

Tudo começou em 1990, quando o governo inglês aprovou uma lei que obriga todos os executores de projetos de construção civil a analisar, do ponto de vista arqueológico, o que encontrarem durante suas escavações. Antes de 1990, se você estivesse construindo um puxadinho no terreno da sua casa ou um novo shopping center e, durante a escavação das fundações, encontrasse um muro romano ou artefatos da época do bronze, você podia jogar concreto sobre os achados arqueológicos ou vender o que encontrasse. A nova lei obriga o construtor a contratar arqueólogos para fazer um levantamento do que foi encontrado e produzir um relatório detalhado.

O resultado é que antes de 1990 havia menos de cem arqueólogos trabalhando no setor privado; hoje há mais de 7 mil. O investimento privado em escavações arqueológicas soma US$ 220 milhões por ano, quase dez vezes mais que o gasto pelo governo para financiar pesquisadores universitários.

O fato de esses relatórios não serem publicados em revistas científicas, mas ficarem simplesmente arquivados nas prefeituras, não impediu que cientistas os vasculhassem e escrevessem livros importantes baseados nesses achados. Analisando todas as aldeias da Idade do Bronze, foi possível demonstrar que, ao contrário do que se acreditava, a população na Inglaterra não diminuiu durante este período da Pré-História.

O conhecimento sobre a época em que a Inglaterra foi dominada pelo Império Romano também foi modificado por escavações privadas. Até 1990, somente as ruínas mais importantes haviam sido estudadas. As novas escavações revelaram um grande número de novas vilas e casas, alterando o que se conhecia sobre a dominação romana.

O fato de as escavações ocorrerem ao acaso, ditadas somente pelo progresso da construção civil, está produzindo uma amostragem mais realista do que existe no subsolo inglês. Se isso é uma vantagem, por outro lado o fato de esses documentos não serem publicados e muitos serem de baixa qualidade é claramente um problema. A solução encontrada pelos ingleses é a obrigatoriedade de esses relatórios serem disponibilizados em bancos de dados públicos, o que facilita o acesso e força uma melhora gradativa na qualidade dos dados.

No Brasil. No Brasil há lei semelhante. Grande parte dos novos projetos, seja uma usina hidrelétrica, uma nova indústria ou mesmo uma casa no litoral, só é aprovada após contratação e aprovação de estudos de impacto ambiental (os famosos EIA-Rima). Nesses estudos, biólogos e outros profissionais com formação científica são obrigados a seguir um protocolo detalhado, descrevendo fauna, flora, córregos, topografia e mesmo achados arqueológicos.

Da mesma maneira que na Inglaterra, no Brasil muitos duvidam da qualidade dessas investigações e grande parte desses estudos é de difícil acesso. Por outro lado é muito provável que a quantidade de recursos utilizados para financiar nossos EIA-Rima são muito maiores que as verbas que os governos repassam às universidades para esse tipo de pesquisa.

Não seria o caso de esses dados serem disponibilizados em bancos de dados públicos, onde, além dos achados, constasse a localização da área estudada, o nome e a afiliação dos autores do estudo? Ao longo dos anos, a transparência forçada seguramente provocará melhora na qualidade dos dados e esse banco poderia se tornar uma fonte importante de conhecimento sobre a flora e a fauna brasileira, complementando as coleções existentes nos museus e nas universidades.

Da mesma forma que os ingleses, que agora sabem o que está enterrado embaixo de cada construção, nós poderíamos ao menos quantificar o que destruímos e preservamos na medida em que vamos ocupando nossas florestas, pântanos e o Cerrado.

Fonte: Estadão

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