Inovações na vigilância da resistência do HIV

O vírus da Aids coloca um grande desafio: a resistência aos medicamentos disponíveis. Para realizar a vigilância desta resistência, uma rede de Laboratórios atua em diversos pontos do país. Além das estratégias convencionais de genotipagem, utilizadas atualmente para a análise e vigilância dos vírus que circulam no Brasil, novas estratégias, desenvolvidas com tecnologia nacional, estão prestes a ser incorporadas. Para padronizar estas novas metodologias e capacitar profissionais envolvidos na vigilância laboratorial sobre o tema, o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) sediou, de 24 a 28 de outubro, o 2º curso de Capacitação dos Laboratórios em Genotipagem do HIV-1 para a Microrrede para Novos Alvos Terapêuticos, da Rede Nacional de Genotipagem (Renageno), ligada ao departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde.
“Pela primeira vez, estamos capacitando profissionais para incorporação na rede pública de métodos de genotipagem que foram desenvolvidos 100% baseados nas pesquisas nacionais. Mesmo que não sejam kits patenteados, são métodos que foram desenvolvidos por pesquisadores brasileiros e que o Ministério, numa iniciativa muito positiva, decidiu incorporar na prática clínica”, ressalta Mariza Morgado, chefe do Laboratório de Aids e Imunologia Molecular do IOC, que sedia o curso. A microrrede de assistência, de acordo com Mariza, vai testar três alvos que não estão na rotina dos pacientes infectados pelo HIV. “O que está na rotina é a genotipagem da Protease e da Transcriptase Reversa. A Microrrede vai ser experimental para três novos alvos: a Integrase, a molécula Gp41, que está associada a inibidores de fusão, e a C2V3”, diz.
Para ela, o Brasil é capaz de produzir métodos próprios sem que haja a necessidade constante de compra de tecnologias no exterior. “Isso vai facilitar o acesso a essas metodologias que comercialmente são bem caras, até porque o número de pacientes que se beneficiam ainda é pequeno. A comunidade científica brasileira vem lutando para beneficiar a população”, diz a pesquisadora.
Estratégia premiada
A Fiocruz foi responsável por desenvolver a metodologia para um dos alvos (os inibidores de integrase), a partir da tese de mestrado em Biologia Parasitária da estudante Caroline Pereira Bittencourt Passaes, defendida em 2007. “Atualmente, nós aplicamos o método para protocolos clínicos e agora vem incorporado na rede. Para nós isso é muito positivo”, comemora a imunologista.
O trabalho de Caroline Passaes rendeu ao IOC, naquele ano, uma menção honrosa no Prêmio de Incentivo em Ciência e Tecnologia para o SUS. O estudo, sob a orientação de Mariza Morgado, promoveu a caracterização da diversidade genética da enzima integrase do HIV-1, essencial para o ciclo de replicação do vírus, com o objetivo de identificar se a região permaneceria como um alvo íntegro para o tratamento, apresentando baixa taxa de mutação. Os resultados descrevem a integrase como uma proteína altamente conservada, que pode por isso ser considerada um alvo terapêutico promissor para o tratamento da AIDS e a produção de vacinas.
Pioneirismo
José Carlos Couto-Fernandez, membro do comitê assessor da Renageno e pesquisador do Laboratório de AIDS e Imunologia Molecular do IOC, disse que a Microrrede, neste primeiro ano, está funcionando como projeto de pesquisa para que sejam avaliados os resultados ao longo de 2011 que será repassado para a Rede Nacional. “As metodologias de genotipagem do HIV ainda não são comercialmente disponíveis. O que nós estamos fazendo, como medida pioneira e inovadora do Ministério da Saúde junto à Fiocruz e aos laboratórios produtores, é lançar estes testes como um produto que possa investigar a resistência adquirida nos pacientes em terapia a um baixo custo e com a perspectiva de uma avaliação nacional. Alguns laboratórios da Renageno foram selecionados para executar as metodologias”, afirma o imunologista que segundo ele, foram utilizados critérios de competência estabelecida para a seleção dos laboratórios envolvidos, levando-se em conta a infraestrutura e o suporte tecnológico.
“À medida em que a Fiocruz participa desde o começo da Renageno, e com a parceria da UFRJ em todo o processo de validação dos testes, temos a oportunidade de ter o conhecimento centralizado e padronizado. Temos a competência e a autoridade no sentido de coordenar esta microrrede utilizando todo o fluxo operacional da rede nacional. A unificação dos métodos de genotipagem do HIV-1 é justamente para se ter uma maior padronização no desenvolvimento dos diferentes métodos”, pontua o coordenador do evento.
A Rede Nacional de Genotipagem do HIV-1 (Renageno) foi estabelecida como política nacional em 1999 e seu funcionamento operacional foi iniciado em 2001. Atualmente, é composta de 23 laboratórios executores e um de resgate. O Laboratório de AIDS e Imunologia Molecular do IOC é um deles.
Implementação
“A Microrrede vai efetivamente ser implantada em breve e será disponibilizada para a população brasileira que necessitar de um método de genotipagem especial. É um projeto importante do ponto de vista terapêutico”, afirma Rosangela Maria Magalhães Ribeiro, assessora técnica da Coordenação de Cuidado e Qualidade de Vida do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, do Ministério da Saúde. “Terminando este módulo laboratorial, vamos passar para a etapa seguinte, que consistirá na divulgação de uma Nota Técnica a fim de descrever os critérios para solicitação do teste pelos médicos de referência em genotipagem”.
Fonte: Fiocruz
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