Um abraço fatal nas árvores

Cientistas estão observando um novo padrão ameaçador nas florestas tropicais: cipós estão derrubando as árvores e se tornando dominantes
Stefan Schnitzer fez uma pausa ao longo de uma das trilhas que atravessam essa ilha florestal no meio do Canal do Panamá. Ao seu redor havia árvores, suas altas copas encobriam a luz do sol tropical e um ou outro cipó, ou liana, enroscado nos grossos troncos. Mas ele observava uma clareira na floresta a poucos metros da trilha.
Ali, sob o sol inclemente, um toco de árvore estava recoberto por um enxame de cipós, com suas gavinhas intricadas formando um emaranhado pesado. Claramente, a árvore caíra em algum momento, criando uma clareira na cobertura da selva e abrindo espaço para o ataque dos cipós.
“Isso é típico em muitas florestas tropicais”, disse Schnitzer, biólogo da Universidade de Wisconsin-Milwaukee e ligado ao Smithsonian Tropical Research Institute, com sede na Cidade do Panamá, e que tem uma estação de campo a meio caminho do istmo. “Onde acontece alguma perturbação, ocorre esse influxo enorme de cipós. Eles chegam nessa hora e não morrem, simplesmente espalham suas gavinhas em toda parte. Esta é uma interação entre cipó e árvore na sua forma mais terrível.”
Schnitzer entende as interações entre cipós e árvores e o que ele sabe é problemático. Num estudo recente publicado no periódico Ecology Letters, repassando toda a pesquisa sobre o assunto, ele confirmou o que foi documentado pela primeira vez há quase uma década – por todas as florestas tropicais das Américas Central e do Sul, os cipós estão tomando conta. “Não há a menor dúvida de que eles estão aumentando nas florestas tropicais, o mais importante, porém, é que estão crescendo em relação às árvores”.

Causas
Agora, por meio de uma série de experimentos, ele está tentando determinar por que essas mudanças estão ocorrendo. Compreender por que os cipós estão aumentando seu domínio é importante por causa do seu potencial em reduzir a capacidade das florestas tropicais como dissipadoras de carbono, depositando o elemento nos troncos e outros tecidos lenhosos via fotossíntese. Isso tem implicações nas mudanças do clima, já que o armazenamento regula a quantidade de dióxido de carbono, ligado ao efeito estufa, na atmosfera.
“As florestas tropicais guardam cerca de um terço do carbono terrestre do planeta”, diz. “Grandes mudanças nas florestas representam uma alteração enorme no ciclo do carbono global”.
Os cipós são parasitas estruturais que apoiam suas gavinhas finas nas árvores enquanto escalam rumo à copa da floresta, onde produzem uma profusão de folhas. Eles formam um grupo diverso e não são espécies invasoras como o kudzu, nativo da Ásia e que cresce de forma descontrolada no sudeste dos Estados Unidos.
Formações emaranhadas como as que chamaram a atenção de Schnitzer durante um passeio breve pela ilha são os exemplos mais óbvios do poder dos cipós afetando as florestas tropicais. Contudo, mesmo em áreas menos perturbadas, estudos apontam para o crescimento de sua presença.
Infestação de cipós
Oliver Phillips, pesquisador da Universidade de Leeds, Inglaterra, publicou o primeiro estudo documentando o fenômeno – na Amazônia ocidental, envolvendo porções da Bolívia, Equador e Peru – na revista Nature, em 2003. A pesquisa foi recebida com ceticismo pelos críticos, que acusavam sua amostra de não ser representativa porque ele estudou unicamente cipós de grande diâmetro.
Desde então, no entanto, a tese básica foi confirmada por mais pesquisas na Amazônia, no norte da América do Sul e na América Central. Em Barro Colorado, Panamá, por exemplo, onde algumas áreas foram estudadas intensivamente durante décadas, uma pesquisa de 2007 feita por Schnitzer e colegas constatou que, em determinadas regiões, as coroas de 75% das árvores com troncos acima de 20 centímetros de diâmetro estavam infestadas de cipós, uma elevação de 57% sobre 1980.
“Em quase todo lugar que ele examinou ou outros examinaram foi encontrado o mesmo padrão”, contou Phillips.
Os cipós trazem alguns benefícios, principalmente para os animais. Eles costumam ser uma fonte de alimentos durante a seca quando florescem e dão frutos, coisa que muitas árvores não fazem. Por serpentearem até a copa das árvores, os cipós são um caminho para animais que fazem essa jornada. (Os animais não se balançam nos cipós, como o Tarzan, por terem as raízes firmemente fincadas no chão. Balançar-se em cipós é uma criação de Hollywood.) Mas os cipós vencem a competição com as árvores pelos nutrientes do solo, água e luz, podendo impedir seu crescimento e, ao longo do tempo, matá-las.
Morte dinâmica
As árvores também sofrem com o que Phillips descreveu como ‘morte dinâmica’, ficando tão infestadas que o peso das folhas e gavinhas dos cipós, ainda mais com chuva e vento, criam tanta fadiga mecânica que elas caem. Os cipós entrelaçados às árvores também caem, mas por serem flexíveis, não se ferem e logo rebrotam. É o que pode ter acontecido naquela clareira em Barro Colorado.
Embora possam armazenar carbono nas gavinhas e folhas, os cipós guardam muito menos do que as árvores, com seus troncos lenhosos. Assim, deslocar várias árvores com cipós representa uma redução na capacidade de estocagem de carbono da floresta. Mesmo que sobreviva à infestação, o crescimento atrofiado a fará armazenar menos carbono do que uma árvore crescida.
Segundo Phillips, os cipós também podem reduzir a armazenagem de carbono afetando a diversidade da floresta. As espécies de árvores que crescem rapidamente estão mais capacitadas a “escapar” das infestações, assim as florestas recheadas de cipós costumam ter mais dessas espécies. Só que as árvores que crescem com maior velocidade têm densidade mais leve, estocando menos carbono. Ainda de acordo com Phillips, no Peru, ele e seus colegas calcularam que as infestações reduzem a capacidade de armazenamento de carbono em cerca de dez por cento.
Vantagem
Ninguém sabe ao certo por que os cipós estão derrotando as árvores, mas os pesquisadores têm algumas ideias. O próprio dióxido de carbono pode desempenhar um papel – os cipós talvez tenham melhor capacidade de usá-lo, conferindo-lhes uma vantagem com os níveis elevados do gás por causa da atividade humana.
A água pode ser um fator importante. “Achamos que os cipós são muito bons para tirar água do solo”, disse Schnitzer. Os sistemas vasculares em suas pequenas gavinhas são mais do que eficazes para levar uma quantidade enorme de água até as folhas nas copas. “Eles são como canudinhos.”
Segundo ele, as árvores não são tão eficientes nesse aspecto, ou seja, durante a época da seca, que no Panamá se estende de dezembro a abril, os cipós vicejam. “Eles crescem quando as árvores dão uma parada. É uma vantagem competitiva baseada na água.”
Secas mais longas
Tal vantagem pode aumentar se, como muitos cientistas afirmam ser provável, as mudanças climáticas resultarem em temporadas secas mais longas. Testar essas hipóteses é difícil, mas Schnitzer está começando a fazer isso. “Eu sei usar o facão, então resolvi cortar umas coisas.”
Num experimento envolvendo 16 trechos de floresta de 79 por 79 metros, numa península próxima, a equipe de Schnitzer está cortando os cipós da metade deles para estudar como as áreas vão mudar, esperançosamente ao longo de décadas. Em outro teste, os pesquisadores estão empregando instrumentos para estudar os impactos imediatos da remoção do cipó das árvores, inclusive sua capacidade de transportar água, para avaliar a hipótese de que eles não afetam as árvores uniformemente.
Para Phillips, que está testando várias das mesmas hipóteses, os experimentos de Schnitzer “serão reveladores”. Só que em vez de estudar trechos pequenos, Phillips está procurando padrões pela floresta inteira. Se os cipós têm melhor capacidade de usar a água durante a seca, por exemplo, então ele espera encontrar uma mudança em seu domínio numa selva que fique mais seca ou úmida de uma ponta a outra. “É uma abordagem totalmente diferente da do Stefan, mas complementar.”
A maioria dessas experiências é de longo prazo, então pode demorar um tempo antes de os pesquisadores compreenderem inteiramente por que os cipós estão virando dominantes. Enquanto isso, é difícil negar as evidências.
Mais tarde durante a caminhada, Schnitzer encontrou outra clareira na floresta. Desta vez, a queda da árvore parecia mais recente e os cipós, que também vieram abaixo, ainda tinham de rebrotar e dominar. “Se você voltar daqui a um ano, haverá mudanças. Haverá novos cipós, enraizados e crescendo. E todas as árvores estarão descontentes.”
Fonte: The New York Times
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