Planta depende de pássaro


Por Fernando Reinach – O Estado de S.Paulo

São os pássaros que dependem das florestas ou as florestas que dependem dos pássaros?

Para o observador desavisado, parece que são os pássaros que dependem das matas. Afinal, é nelas que as aves fazem seus ninhos, coletam frutas e insetos e cantam para atrair seus pares. O desmatamento faz desaparecer os pássaros, que voltam quando elas são recuperadas.

Mas a relação entre plantas e pássaros é muito mais complexa. Agora, pela primeira vez, os cientistas demonstraram que a extinção de pássaros pode levar à extinção de plantas.

Faz muito tempo que se sabe que pássaros prestam serviços às plantas. O exemplo mais conhecido é o de transportá-las para novos ambientes. Muitos pássaros carregam no intestino as sementes ingeridas junto com as frutas. Quando as fezes são depositadas em locais distantes, a semente, que sobrevive ao processo digestivo, germina. Com isso, as plantas se espalham por novos ambientes, apesar de estarem fixas ao solo.

Outro serviço prestado pelos pássaros é o de polinização. Ao voarem de flor em flor, alimentando-se do néctar, muitos pássaros carregam pólen, o que permite a fertilização das flores e a produção de sementes. É um serviço semelhante ao executado pelas abelhas.

Apesar de esses serviços serem bem conhecidos, nunca foi possível demonstrar que eles eram essenciais para a sobrevivência de uma espécie de vegetal. Até agora, acreditava-se que os pássaros ajudavam as plantas a se reproduzir, mas não eram absolutamente necessários para sua sobrevivência.

No século 19, diversos mamíferos devoradores de pássaros foram introduzidos pelo Homo sapiens na ilha principal da Nova Zelândia. Como resultado, 49% das espécies de pássaros desapareceram da ilha.

Mas o lado sapiens dos neozelandeses teve a sabedoria de transformar as pequenas ilhas que circundam a ilha principal, algumas a menos de 20 quilômetros de distância, em santuários e áreas de preservação. Nelas, não é permitida a presença dos predadores.

Essa situação permitiu aos cientistas estudar o que ocorreu com a população de plantas após o desaparecimento dos pássaros. A planta escolhida foi um arbusto abundante chamado Rhabdothamnus solandri. Essa planta, que produz flores amarelas, é visitada por três espécies de pássaros. Duas delas, Anthoris melanura e Notiomistes cincta, desapareceram da ilha principal; sobrou apenas o tui (Prostemadera novaeseelandiae). Nos santuários, os três pássaros estão presentes.

Menos sementes. Quando os cientistas mediram a porcentagem das flores fertilizadas em cada ambiente, descobriram que, na ausência de pássaros, 69% das flores não haviam sido polinizadas – enquanto 15% das flores não eram polinizadas na presença de pássaros.

Entre as flores polinizadas, os cientistas contaram o número de sementes produzido por flor, que caiu de 232 para 37 na ausência de pássaros. A combinação desses dois efeitos, causados pela ausência de dois dos três pássaros, resulta numa redução de 84% na quantidade de sementes produzidas. Isso foi confirmado quando foi medida a fração das flores visitadas pelos pássaros. Na ilha principal, somente 25% das flores eram visitadas, enquanto 78% das flores eram visitadas nas ilhas pequenas.

O resultado dessa queda no número de sementes ficou evidente quando os cientistas estudaram a população da planta nas duas ilhas. Na ilha principal, ainda existe um grande número de arbustos adultos (a planta vive quase cem anos), mas a população de plantas jovens é muito reduzida. Isso não ocorre nas ilhas pequenas, onde plantas jovens convivem com as plantas mais velhas.

O efeito dessa redução no número de plantas jovens permite prever que esse lento declínio e envelhecimento das plantas na ilha principal podem levar à extinção dessa planta nas próximas décadas.

Finalmente, para garantir que esse fenômeno não era causado por alguma outra causa que não a ausência de pássaros, os cientistas, durante um período de cinco anos, fertilizaram manualmente algumas plantas em uma pequena área (fazendo o papel dos pássaros); em outras áreas, adicionaram sementes ao solo. Nos dois casos, a população de plantas voltou ao normal.

É o primeiro caso documentado de uma planta cuja sobrevivência depende totalmente da presença dos pássaros. Ninguém sabe qual a fração das plantas que é totalmente dependente dos serviços prestados por esse animais. Como sempre, as relações entre as espécies de um ecossistema são muito mais complexas e interdependentes do que imaginamos.

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