Na vida real, existem apenas 71 ararinhas-azuis sobreviventes, sendo 66 erradicadas do país

O filme ‘Rio’, sucesso de bilheteria, conta a trajetória da ararinha-azul ‘Blu’, que luta para sua espécie não ser extinta. Na vida real, o último registro televisivo da ave, que é natural da Caatinga baiana, aconteceu há 20 anos, quando a imagem foi atração do primeiro programa “Globo Ecologia”.
Existem 71 indivíduos sobreviventes da espécie, sendo 66 erradicados do país, dependentes de protetores particulares. O maior deles, um xeque do Qatar, prepara sua coleção para voltar aos céus nordestinos. Ele e o governo federal lançarão, até o fim do mês, plano para definir o cronograma para libertação de algumas aves. Até chegar a esta etapa, porém, são pelo menos cinco anos de trabalho.
A ararinha-azul tornou-se símbolo de status por despertar o interesse de milionários. Nos anos 80, a Cyanopsitta spixxi – seu nome de laboratório – era vendida por até R$ 30 mil, em valores corrigidos.
Na década de 80, Carlos Yamashita, ornitólogo especialista em araras, patriarca da família que monopolizava o comércio da ave, morreu. Seu filho caçula, em vez de pegar só dois filhotes por ano, como fazia seu pai, levou 15 de uma vez, o que comprometeu definitivamente a espécie.
No fim daquela década, restava apenas um exemplar macho da espécie na natureza, que foi fotografado por Luiz Cláudio Marigo, em uma expedição internacional, já em 1990.
Marigo conta que fizeram parte da expedição quatro brasileiros e um inglês. Juntos, eles foram do Piauí até a Bahia, onde finalmente encontraram a ave. “Quando divulgamos as imagens, recebemos um fax do Ibama nos condenando por supostamente termos chamado a atenção dos traficantes para a ave. Não houve, por parte do governo, uma iniciativa para protegê-la desse risco”, conta o fotógrafo.
Cinco anos depois, a ararinha ganhou companhia de uma fêmea da mesma espécie que foi libertada na região. O casal conviveu por sete semanas – não se sabe se copularam. Após este período, a ave recém-saída de cativeiro morreu ao entrar em contato com fios de alta tensão.
O choque elétrico é lembrado até hoje no Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão do governo federal responsável pela montagem de um plano para preservação da espécie. Um projeto, feito em parceria com a Al Wabra Wildlife Preservation, do Qatar, será divulgado ainda este mês.
“Para soltá-los, é necessário atingir uma população mínima, e o índice não será atingido nos próximos cinco anos” pondera Ugo Vercillo, coordenador-geral de Espécies Ameaçadas do ICMBio. “Vamos trabalhar na preparação de um ambiente para a soltura. Precisamos identificar que áreas servem para a libertação da espécie, quais são os animais que podem representar algum perigo, onde a ave pode pôr seus ninhos e se alimentar”.
A Al Wabra é administrada pelo xeque Saoud Bin Mohammed Bin Ali Al Thani, o maior protetor de ararinhas-azuis do mundo: há 55 sob seus cuidados. A mais nova nasceu em março. Cerca de dez anos atrás, Saoud passou de colecionador passou a protetor, e comprou uma fazenda na Bahia, que garante o compromisso posterior de sua libertação.
O australiano Ryan Watson foi o encarregado pelo xeque dos cuidados das ararinhas. Caberá a ele aumentar a incidência de acasalamentos – nos últimos sete anos, apenas 28 filhotes nasceram. Quanto maior for este reforço, mais rápida será a volta das aves a seu habitat.
Watson acredita que, mesmo que o projeto seja bem-sucedido, a espécie não sairá da lista das mais ameaçadas, por sua diversidade genética muito limitada e dificuldade de adaptação a mudanças climáticas. As ressalvas, porém, não o impedem de considerar a Caatinga preparada para as aves.
Já o ornitólogo Yamashita é mais cauteloso. Para ele, algumas intervenções humanas precisam ser corrigidas antes das ararinhas povoarem a região. “O índice de desmatamento reduziu a quantidade de árvores usadas pela ararinha e os índices de chuvas. Está seco demais, mesmo para os padrões da Caatinga”, afirma Yamashita.
Fonte: Portal Globo.com
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