O custo de educar o predador

Os seres vivos utilizam cores para se comunicar. O vermelho de uma flor avisa: “Abelhas, aqui tem néctar”. As penas vistosas do pavão perguntam: “Quer acasalar? Veja como sou lindo”. Em outros casos, a melhor comunicação é o silêncio – são as colorações que tornam o animal quase invisível. Aí encontramos as listas dos tigres e a versatilidade do camaleão. Mas um caso especialmente interessante é o dos animais que possuem espinhos ou venenos capazes de desencorajar seus predadores.
Muitos insetos e peixes se enquadram nessa categoria. Neste caso sua coloração avisa: “Sou venenoso, não ouse me atacar”. Mas esses animais têm de enfrentar um problema: seus predadores precisam ser educados. Quando nascem, os predadores não associam a combinação de cores com o gosto horrível da presa ou a possibilidade de serem machucados por espinhos ao devorá-la. Precisam aprender na base da tentativa e erro. Devoram o primeiro exemplar, passam mal e passam a associar o padrão de cor a seu gosto horrível. Na próxima vez que se defrontarem com a vítima, lembram da má experiência e desistem.
O resultado é que a população de presas paga um custo alto para educar os predadores. Muitos indivíduos são devorados até que cada predador seja educado, reconheça e evite a presa colorida.
Em 1872, um biólogo chamado Bates descreveu, nas margens do Amazonas, o primeiro caso de mimetismo entre borboletas. Ele descobriu que diversas espécies de borboletas possuíam a mesma coloração. Em 1879, outro biólogo, Müller, explicou o que estava acontecendo. Em alguns casos, espécies de borboletas que não eram venenosas apresentavam o mesmo padrão de cor de uma borboleta venenosa. Dessa maneira, elas “pegavam carona” na fama da borboleta venenosa. Os predadores, pensando que elas eram venenosas, evitavam-nas. Nesse caso de mimetismo, as espécies não venenosas aumentam o custo de educar os predadores, pois um predador deseducado, quando come uma borboleta não venenosa, não aprende a evitar borboletas dessa cor. Portanto um número maior de borboletas venenosas é sacrificado para educar a população de predadores.
Mas o caso mais interessante descrito por Müller é o que ocorre quando diferentes espécies de borboletas, todas venenosas, adotam o mesmo padrão de cor. Nesse caso, qualquer que seja a borboleta abocanhada pelo predador (geralmente pássaros), o resultado é uma intoxicação, o que leva à educação do predador. Müller propôs que, ao compartilharem a mesma cor, todas as espécies diminuíam o custo de educar o predador.
Imagine o exemplo em que três espécies venenosas tenham cores distintas. Um predador terá de comer um exemplar de cada espécie para aprender a evitar as três. No caso de as três espécies apresentarem a mesma cor, basta o predador comer um exemplar de uma delas para passar a evitar as três espécies. O custo de educar o predador foi reduzido a um terço. Müller propôs que espécies distintas estavam colaborando, dividindo entre elas o custo da educação.
Mas um dilema preocupava os biólogos que estudam esse tipo de mimetismo. Se por um lado o grupo de espécies leva vantagem ao manter a mesma cor, por outro existe um custo associado a possuir a mesma cor de seus competidores. Ao diminuir o custo da educação dos predadores (uma vantagem), o mimetismo força cada uma das espécies a conviver com as outras – e portanto dividir com elas o alimento (uma desvantagem). O ganho proporcionado pelo baixo custo da educação seria maior que o prejuízo causado pelo aumento no nível de competição entre as espécies?
Estudar a competição por alimento entre borboletas é difícil. Por esse motivo, a dúvida sobreviveu por mais de um século. Agora, um grupo de pesquisadores, incluindo um brasileiro da Unesp de Jaboticabal, resolveu o problema.
Eles descobriram que diversas espécies de peixes do grupo dos bagres adotam um padrão de cor semelhante. Tanto na região Amazônica quanto nos rios de São Paulo, grupos de espécies de bagres, todos protegidos por espinhos dorsais, adotam a mesma coloração e são um caso típico de mimetismo mülleriano. As cores semelhantes fazem com que eles dividam o custo de educar seus predadores – pássaros e outros peixes.
Estudando nove regiões distintas (rios da Amazônia, do Centro-Oeste e do Sul do Brasil), em que grupos de espécies de bagres apresentam a mesma coloração, foi possível mostrar que em cada um desses grupos só coexistem espécies que possuem diferentes padrões de alimentação.
Ou seja, dentro de cada grupo, os bagres com a mesma cor dividem o custo de educar os predadores, mas não competem entre si pela alimentação e portanto não são prejudicados pela presença de seus parentes de cor semelhante. Müller teria aplaudido a descoberta.
Descobertas como essa são possíveis porque a biodiversidade de peixes nos rios brasileiros é das maiores do planeta. É mais um motivo para proteger nossa biodiversidade.
Fonte: O Estado de S.Paulo
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