Quanto custa ser resistente a um parasita

Por Fernando Reinach – O Estado de S.Paulo
A ilha de Hirta é a maior do Arquipélago de St. Kilda, no noroeste da Escócia. Medindo cerca de 3 quilômetros de ponta a ponta e isolada por um mar revolto, foi ocupada ininterruptamente por aproximadamente 200 seres humanos desde o Neolítico até 1930, quando uma mulher morreu de apendicite e toda população resolveu deixar a ilha. Desde então, é uma reserva ecológica.
Ficaram para trás os carneiros selvagens, provavelmente trazidos na época neolítica. A população de carneiros na ilha nunca passa de mil animais. Em invernos rigorosos, ela baixa para 200, por causa da alta mortalidade. Nos anos seguintes, ela se recupera rapidamente, até ser exterminada por um novo inverno rigoroso. Esse ciclo se repete a cada 3 ou 4 anos.
Sem predadores, o crescimento da população é controlado pelo clima e pelas doenças parasitárias. Desde 1985, quando foi iniciado o estudo dessa população de carneiros, os ecologistas têm um registro preciso de todos os nascimentos e vêm coletando sangue e fezes.
O que intrigava os cientistas é que, apesar de muitos desses carneiros possuírem anticorpos capazes de matar os parasitas intestinais, nem todos produziam níveis suficientemente altos de anticorpos para exterminá-los. Seria de se esperar que, em condições tão adversas e após 2 mil anos, os carneiros capazes de resposta imunológica mais potente tivessem sido selecionados. Será que possuir um sistema imunológico eficiente poderia ser desvantajoso para o animal?
De posse dos soros coletados anualmente de cada animal por 25 anos, os cientistas tentaram correlacionar a quantidade de anticorpos no sangue com sua capacidade de sobreviver ao inverno rigoroso e com sua capacidade reprodutiva durante os anos em que a população cresce rapidamente.
Foi observado que os animais com baixas taxas de anticorpos têm menor chance de sobreviver nos invernos rigorosos. Enquanto 65% dos animais com baixos níveis de anticorpos sobrevivem a esses invernos, 75% dos que têm altas taxas de anticorpos conseguem sobreviver.
O curioso é que o oposto ocorre nos anos mais quentes, quando a taxa de sobrevivência no inverno é de 95% para os animais com poucos anticorpos e 90% para os animais com alto nível de anticorpos.
Em seguida, verificaram se a quantidade de anticorpos nos machos afetava sua capacidade reprodutiva. Nesse caso, 50% dos machos com poucos anticorpos geravam filhos a cada ano, mas só 15% dos com alta taxa de anticorpos reproduziam todos os anos. No caso das fêmeas, a fecundidade (porcentagem das fêmeas que geram um filhote vivo a cada ano) era maior (85%) no caso das com poucos anticorpos e menor nas com muitos anticorpos (77%).
Mas quando se examinava a sobrevivência desses filhotes durante o primeiro ano de vida, o resultado se invertia: 85% dos filhotes de fêmeas com baixo nível de anticorpos sobreviviam, enquanto 93% dos filhotes das fêmeas com altos níveis o faziam.
Esses resultados demonstram que produzir muitos anticorpos traz vantagens (sobrevivência nos invernos rigorosos e filhotes com mais chances de sobreviver), mas também tem custos altos (machos e fêmeas perdem fecundidade e têm mais dificuldade de sobreviver nos invernos menos rigorosos). Isso explica porque a resposta imune contra os parasitas não é sempre robusta.
Normalmente, imaginamos que uma resposta imune forte é invariavelmente vantajosa, pois evita doenças ou faz com que elas se manifestem de forma mais branda. É a primeira vez que se demonstra em mamíferos que desenvolver e manter uma resposta imune eficiente tem custos para o animal e que esses custos aparecem na forma de uma diminuição na sua capacidade reprodutiva.
Isso talvez ajude a explicar porque, mesmo depois de milhares de gerações expostas a certos patógenos, ainda nascemos suscetíveis a tantas doenças. Quem diria que estudar carneiros abandonados em uma ilha fria na Escócia ajudaria a explicar a variabilidade de nossa resposta imune?
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