O genoma completo de um tumor de pulmão

Por Fernando Reinach – O Estado de S.Paulo
Para sequenciar o primeiro genoma humano foram gastos aproximadamente US$ 3 bilhões. Hoje é possível sequenciar o genoma de uma pessoa por US$ 3 mil. É como se um televisor que custava R$ 1 mil no ano 2000 custasse hoje R$ 0,001. Essa redução de custo permite que sejam sequenciados os genomas de milhares de pessoas. Mas o mais interessante é o uso dessa tecnologia para diagnosticar câncer e orientar o tratamento.
O aparecimento de tumores se deve a mutações no genoma de células do órgão afetado. No caso do câncer de pulmão, compostos na fumaça do cigarro provocam essas mutações. Há décadas sabemos que não basta uma única mutação para desencadear o início da divisão descontrolada das células e o consequente aparecimento do tumor. As mutações vão se acumulando e de repente surge o tumor.
E as mutações continuam a se acumular à medida que o tumor se torna mais agressivo, invasivo, metastático e resistente aos tratamentos quimioterápicos. A partir de 1980, foram identificados genes que, ao serem alterados por mutações, causam tumores (chamados de oncogenes). São centenas de genes que, se alterados individualmente ou em combinações, provocam vários tipos de tumor.
Sabemos também que, dependendo do conjunto de genes alterados, o desenvolvimento da doença e o tratamento podem ser diferentes. A grande novidade é a possibilidade de comparar o genoma completo do tumor do paciente com o de suas células saudáveis. Comparando a sequência do DNA dessas amostras, é possível identificar as mutações nas células tumorais de um paciente. Isso foi feito, pela primeira vez, com uma pessoa com câncer de pulmão.
Após a cirurgia, o tumor removido e a amostra normal foram enviados para uma empresa capaz de sequenciar um genoma humano em poucos dias a custo baixo. O DNA das amostras foi sequenciado completamente. Como existem cerca de 3 bilhões de pares de bases no genoma humano, a sequência final de cada uma das amostras continha aproximadamente esse número de bases. Para ter certeza de que as sequências estavam corretas, cada base do DNA foi sequenciada cerca de 50 vezes. Feito isso, as sequências foram comparadas.
O resultado é impressionante. Os dois genomas são 99,99% idênticos, mas o 0,01% de diferença representa mais de 50 mil locais onde uma das bases da sequência do tumor era diferente da presente nas células normais. O problema é identificar a importância relativa de cada uma destas 50 mil diferenças e quais podem fornecer informações úteis para o tratamento.
Uma análise cuidadosa dos dados demonstrou que 391 dessas diferenças estavam em genes. E uma delas afetava um dos genes cujo envolvimento no aparecimento de tumores de pulmão era sabido. O papel das outras 390 mutações ainda é desconhecido.
Outras 43 mudanças correspondiam a alterações de grandes trechos de DNA. Os genes que sabemos serem essenciais para a sobrevivência das células não apresentavam mutações – o que era de se esperar, já que mutações nesses genes levam à morte da célula.
Esse estudo também deixa claro que a grande quantidade de mutações acumuladas nos tumores exigirá uma analise cuidadosa para identificar os dados relevantes para o tratamento. Nos próximos anos, os oncologistas terão de aprender a navegar o tsunami de informações gerado pelo sequenciamento completo de tumores, mas não há dúvidas de que, no futuro próximo, essa tecnologia estará incorporada à rotina dos melhores centros de oncologia.
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