Fezes incriminam gorilas

Por Fernando Reinach – O Estado de S.Paulo
Ele é um dos piores inimigos da humanidade. De tamanho microscópico, reproduz-se no interior das células que carregam oxigênio no sangue. Quando seu número aumenta, trememos de febre, deliramos e sofremos por dias. No ano passado, centenas de milhões de pessoas foram infectadas por esse parasita e mais de 1 milhão de indivíduos morreram. O massacre se repete a cada ano. É a malária. A novidade é que foi descoberto o animal que transmitiu esse parasita para os humanos.
A malária mais perigosa é causada pelo Plasmodium falciparum, transmitido por um pernilongo. Ele pica uma pessoa, infecta-se e, ao picar outra, transmite a doença. Há muitos anos, cientistas descobriram que os chimpanzés também são infectados por uma espécie semelhante, o Plasmodium reichenowi. Como o parasita dos chimpanzés tem genoma parecido com o do parasita humano, os cientistas acreditavam que um macaco ancestral, que teria vivido há mais de 5 milhões de anos, era infectado por uma espécie de Plasmodium. Ao longo de milhões de anos, enquanto nosso ancestral teria evoluído, dando origem ao Homo sapiens e aos chimpanzés, o Plasmodium original também teria evoluído e dado origem a duas espécies de parasitas, uma que ataca a humanidade e outra encontrada nos chimpanzés. Os cientistas acreditavam que convivemos com esse parasita desde antes de nos tornarmos humanos.
Quando se descobriu que o HIV teria se originado na África, cientistas começaram a investigar de onde teria surgido essa nova praga. Examinando sangue de chimpanzés, descobriram um vírus muito semelhante, o que demonstrava que o HIV provavelmente teria “pulado” dos chimpanzés para os humanos e iniciado a epidemia de aids. Na época, o coitado do chimpanzé teve a reputação arranhada: além de ser a fonte da malária, era acusado de ser a do HIV.
Inspirados nas investigações que demonstraram que o HIV tinha “pulado” dos chimpanzés para os humanos, um grupo de cientistas resolveu verificar se outros macacos eram parasitados por parentes do Plasmodium falciparum. O plano era simples: bastava ir à África, coletar o sangue de um grande número de macacos, avaliar se eles estavam infectados com um Plasmodium e determinar o tipo presente em cada animal.
Fácil falar, difícil executar. Subir numa árvore e pedir para um gorila estender o braço para um cientista coletar o sangue não é tarefa para qualquer um. Matar ou anestesiar os animais, nem pensar. A solução foi examinar os bancos de fezes.
Isso mesmo. Existem cientistas que passam a vida no solo da floresta, debaixo de um bando de macacos, coletando as fezes que eles soltam lá de cima. As fezes são uma fonte de conhecimento. Examinando as fezes é possível aprender, por exemplo, o que cada macaco come durante o dia. Uma boa parte dos cientistas que coletam fezes guarda as amostras congeladas em seus laboratórios. Foi analisando o DNA presente nessas amostras que os cientistas puderam descobrir os tipos de Plasmodium que infectam as populações selvagens de macacos. Foram analisadas fezes de 1.827 chipanzés (Pan troglodytes), 107 bonobos (Pan paniscus) e 805 gorilas, sendo que os gorilas pertenciam a duas espécies, Gorilla gorilla (do oeste) e Gorilla beringei (do leste).
Foi descoberto que bonobos e gorilas do leste não são infectados por espécies de Plasmodium. Os chimpanzés, como era de se esperar, são infectados pelo Plasmodium reichenowi. Mas, para surpresa geral, os cientistas descobriram que os gorilas do oeste são parasitados por um tipo de Plasmodium cujo DNA é praticamente idêntico ao do Plasmodium falciparum, causador da malária em seres humanos. Esse resultado demonstra que o parasita da malária provavelmente “pulou” dos gorilas para o ser humano muito depois da separação entre a linhagem dos gorilas e a humana.
Com a descoberta os chimpanzés deixam de ser “culpados” por nossa malária, mas continuam responsáveis por terem originado o HIV. A origem da malária agora é atribuída aos gorilas, incriminados pelas fezes coletadas na floresta. Mas a culpa verdadeira é nossa, dos Homo sapiens. Ao expandirmos rapidamente nossa população, ficamos cada vez mais em contato com outras espécies. Essa proximidade causa o extermínio dessas espécies e facilita a migração de novos vírus e parasitas para a espécie humana. Se você já se contaminou com “bicho geográfico” em praias frequentadas por cachorros e gatos, sabe bem do que estou falando.
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