A ressurreição de um mar quase morto

O mar da costa da Namíbia era um dos melhores lugares do mundo para pescar sardinhas. Décadas de exploração predatória acabaram por exterminar as sardinhas e os peixes que se alimentavam delas. Sem as sardinhas para comer as algas que fazem fotossíntese, estas se multiplicaram rapidamente, reduzindo drasticamente a concentração de oxigênio e tornando as águas turvas.

Sem oxigênio, o resto da fauna da região morreu. Por volta de 1970, a pesca ficou insustentável e os 9 mil quilômetros quadrados do que era uma rica região pesqueira se juntaram a outras regiões costeiras dizimadas pela atividade humana. Mas agora os peixes estão voltado. O interessante é que a recuperação não se deve a qualquer programa de proteção ambiental desenvolvido pelo Homo sapiens, mas graças ao estranho hábito alimentar de um pequeno peixe, o Sufflogobius bibartus.

Em um ecossistema, os seres vivos que sintetizam matéria orgânica utilizando luz solar, sais minerais e água são chamados de produtores primários. A denominação de “primários” reflete o fato deles produzirem grande parte do alimento no ecossistema. No mar as algas e os outros organismos fotossintéticos são os produtores primários. Na terra são as plantas.

Em seguida na cadeia alimentar encontramos os seres vivos que comem estes produtores primários: os herbívoros, como as zebras e gazelas no ambiente terrestre, ou as sardinhas que habitavam a costa da Namíbia. Os carnívoros que se alimentam dos herbívoros, como o leão e o tigre, são chamados de consumidores terciários pois comem os seres vivos que se alimentaram dos produtores primários.

Quando esta cadeia é interrompida, quem vem antes perde seu predador e passa a se multiplicar loucamente – é o caso das algas na ausência das sardinhas ou das gramíneas nas estepes africanas se removêssemos todos os herbívoros. Para os consumidores terciários o destino é a extinção pois seu alimento deixa de existir. É o caso dos peixes que se alimentavam das sardinhas na Namíbia ou dos leões sem herbívoros para caçar. Nós somos consumidores secundários quando comemos alface e terciários quando devoramos um bife.

Com o fim das sardinhas, o acúmulo de fitoplâncton (o nome correto para os organismos que fazem fotossíntese no mar) e a falta de oxigênio provocaram o colapso do ecossistema. Toda a biomassa morta se acumulou no fundo do mar – um ambiente inóspito, sem oxigênio, onde somente algumas espécies de águas-vivas sobrevivem. Como era de se esperar, as águas-vivas se multiplicaram loucamente. Tudo indicava que o ecossistema estava moribundo e levaria séculos para se recuperar.

Mas nos últimos anos os ecologistas observaram um fato inesperado. Os peixes carnívoros reapareceram na costa da Namíbia. Examinando o estômago destes peixes foi descoberto que eles não estavam se alimentado de sardinhas, mas de outro peixe, o Sufflogobius bibartus.

Mas do que se alimenta o S. birbatus, que esta se reproduzindo loucamente, aumentando rapidamente sua população? O pouco fitoplâncton que havia e sobreviveu não poderia explicar o crescimento dos cardumes de S. birbatus.

Usando sonares para acompanhar as andanças dos cardumes de S. birbatus e examinando o conteúdo de seus estômagos os cientistas descobriram seu segredo. Os S. birbatus se alimentam das águas-vivas que habitam a região sem oxigênio formada no fundo do oceano. Não somente os S. birbatus são resistentes ao veneno da água-viva, mas são capazes de permanecer por horas no fundo do mar, em uma região pobre de oxigênio, devorando as águas-vivas. Após se alimentarem, os cardumes de S. birbatus voltam para a proximidade da superfície e reconstituem seus estoques de oxigênio. É neste momento que são devorados pelos outros peixes, que aos poucos estão voltado, atraídos pela comida abundante.

A recuperação dos mares da Namíbia não está ocorrendo por causa do retorno das espécies originais, mas através da organização de uma nova cadeia alimentar, com pelo menos dois novos membros, as águas-vivas e os S. birbatus.

Quem poderia imaginar que os S. birbatus, peixes muito especializados e com hábitos alimentares tão pouco usuais, pudessem vir a ter um papel tão importante? Eles existiam nos oceanos em pequeno número, ocupando seu nicho especializado, mas bastou o ambiente mudar para que eles rapidamente ocupassem o espaço deixado pelas sardinhas, trazendo de volta os peixes carnívoros para o mar da Namíbia.

Este é o real valor da biodiversidade. O conjunto de espécies que existia na região – sua biodiversidade – forneceu os seres vivos que estão reconstruindo o ecossistema abalado pelo homem. Este exemplo demonstra como é difícil prever como um ecossistema reage quando agredido.

Fonte: Jornal Estado de São Paulo

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