A ciência não deve ter amarras

A repercussão do caso do biólogo Louri Klemann Júnior, que abateu dois guarás – pássaro ameaçado de extinção – em maio deste ano, no litoral do Paraná, fomentou o debate sobre as dificuldades enfrentadas por quem realiza pesquisas na área no país. Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Zoologia (SBZ), Rodney Ramiro Cavichioli, que também é professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a pesquisa científica vem sendo cerceada por órgãos federais, em função da burocracia exagerada.

Sobre o caso específico do biólogo paranaense, Cavichioli entende que a reação ao episódio foi exagerada. “É no mínimo ambíguo multar um pesquisador que tem residência fixa, local de trabalho fixo e que exerce uma atividade para gerar conhecimento. Os dois guarás abatidos eram jovens, não tinham aquela coloração alaranjada e eram extremamente parecidos com as aves que o biólogo iria coletar”, defende. Confira os principais trechos da entrevista concedida à Gazeta do Povo pelo presidente da SBZ:

Atualmente, como o senhor justificaria a necessidade das atividades de coleta de material para pesquisa científica?

A coleta de material zoológico é importante para o conhecimento. Todo material deve ser mantido em uma coleção institucional, com o objetivo de garantir sua preservação e seu acesso, como patrimônio da sociedade. As coleções são o legado que deixamos às gerações futuras sobre a biodiversidade. Em muitas coleções existem exemplares de plantas e animais já extintos, outros não identificados ou pouco estudados. Eles podem mostrar-se extremamente benéficos à humanidade no futuro. A comparação de exemplares de diferentes locais e de diferentes momentos na história permite a reconstrução de ambientes e climas passados, o que aumenta nossa capacidade de entender o meio ambiente e de prever suas mudanças. As coletas de hoje poderão informar pesquisadores daqui a 500 anos sobre como a fauna e a flora foram respondendo às mudanças climáticas.

Para o senhor, o caso do abate dos guarás no litoral do Paraná não representou uma degradação do meio ambiente?

É no mínimo ambíguo multar um pesquisador que tem residência fixa, local de trabalho fixo e que exerce uma atividade para gerar conhecimento. Os dois guarás abatidos eram jovens, não tinham aquela coloração alaranjada e eram extremamente parecidos com as aves que o biólogo iria coletar. O abate foi acidental. Ele registrou o acidente em seguida. Uma instrução normativa do Ibama regulamenta a coleta imprevista, que não é desejada e nem estimulada. Ocorre esporadicamente, normalmente em situações não controláveis. Os dois exemplares de guarás abatidos não vão afetar, em absoluto, o equilíbrio populacional da espécie. Foi um fato pequeno e isolado que se tornou uma bola de neve tão grande que até assusta quem está fazendo pesquisa.

Como deve ser o controle sobre a coleta de material?

O Brasil abriga entre 25% e 30% de toda a biodiversidade do mundo. Isso significa que temos um campo muito grande a ser explorado. Por isso, o fato de alguns órgãos do governo estarem cerceando a pesquisa científica é extremamente danoso e nos preocupa muito. A atividade de coleta de material biológico para fins científicos foi regulamentada pelo próprio Ibama, em 2007, e desde então toda a coleta, captura para marcação e manutenção em cativeiro de animais dependem de uma licença ou autorização do órgão competente – o Instituto Chico Mendes, subordinado ao Ministério do Meio Ambiente. Teoricamente tudo isso foi feito, mas agora se interpreta de forma diferente.

As questões burocráticas seriam o principal problema da pesquisa científica hoje no país?

Nos últimos oito anos tivemos a maior quantidade de recursos já disponibilizada para pesquisas. Por outro lado, foi o período em que tivemos os maiores entraves burocráticos. O próprio governo reconhece isso. Precisamos ter uma regra clara e uniforme para todos os órgãos. É necessário ter uma política nacional e liberdade para fazer pesquisa. A ciência não deve ter amarras. Um país sem ciência é um país que não cresce, é um país que não se desenvolve.

Fonte: Gazeta do Povo

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