Estudo identifica proteína que gera medo em camundongo

Um grupo de pesquisadores, liderado pelo biólogo brasileiro Fábio Papes, conseguiu identificar uma proteína que, em contato com um órgão específico do sistema olfativo de camundongos, gera o comportamento de medo nesses animais. A proteína está presente em predadores, mas, de acordo com o estudo, as respostas defensivas ocorrem mesmo em camundongos que jamais tiveram experiências anteriores de risco. Segundo Papes, as conclusões são importantes porque podem ajudar a compreender melhor o funcionamento do cérebro humano.

“Sabíamos que há várias modificações comportamentais e hormonais nos camundongos na presença apenas de odores dos predadores”, explica o biólogo brasileiro, professor do Departamento de Genética, Evolução e Bioagentes do Instituto de Biologia (IB) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Como essas mudanças ocorriam mesmo em animais que não tinham experiência prévia com predadores, significava que o cérebro desses animais já é preparado geneticamente para essas respostas”.

Essas reflexões foram o ponto de partida para os cientistas iniciarem o estudo do ponto de vista molecular. Com base em um modelo criado na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, os pesquisadores criaram camundongos manipulados geneticamente. “A modificação atingia um único gene, responsável pelo funcionamento do órgão vomeronasal, uma estrutura sensorial presente na cavidade nasal”, conta o biólogo. Ele explica que a função do órgão vomeronasal ainda é pouco conhecida. Mesmo sem o funcionamento dele, os camundongos conseguem sentir todo o tipo de cheiro normalmente. “O próprio ser humano tem esse órgão, mas ainda não sabemos exatamente para o que serve”, afirma Papes.

E apesar de continuar a sentir odores, os camundongos sem o órgão vomeronasal deixaram de apresentar sinais de defesa ao entrar em contato com o cheiro de predadores. Mais que isso: diante de predadores naturais, como ratazanas ou gatos, os camundongos não esboçavam qualquer reação, e chegavam a dormir em cima dos animais maiores. “Havia sensação visual, tátil e de temperatura dos predadores. Só por estarem sem o órgão vomeronasal, os camundongos perderam totalmente a resposta de medo”.

Proteína

O passo seguinte da pesquisa foi identificar o elemento secretado por predadores que, em contato com o órgão volmeronasal provocaria as respostas defensivas. “Separamos cada molécula da ratazana e descobrimos que esse componente não era uma molécula simples, mas uma proteína, tipo de molécula grande e bastante complexa”, conta o brasileiro.

Papes conta ainda que a proteína, que pertence à família das Proteínas Majoritárias da Urina (MUP, na sigla em inglês), também foi encontrada na saliva de gatos. Na verdade, sabe-se que genes de MUP estão presentes em todas as espécies animais vertebradas, exceto no homem, segundo o biólogo. “Agora, o que essas proteínas fazem em todas as espécies, ainda não sabemos. Podem estar induzindo a outros comportamentos, mas isso é só especulação”.

Importância

O pesquisador explica que as conclusões da pesquisa podem ser importante em diversas aplicações. “Com esses resultados fica mais fácil para entender como o cérebro, inclusive o humano, faz a transformação de estímulo em atividade elétrica”, diz. Ele explica que pesquisas nesse sentido com seres humanos não inviáveis, pois não há pessoas cujos cérebros estejam livres de memórias, experiências ou aprendizados anteriores. “Se pudéssemos fazer os mesmos experimentos com humanos, por exemplo, o resultado seria influenciado por outras variáveis, além da genética”, afirma.

Mas ele lembra que há estudos que mostram relação direta entre olfato e comportamentos humanos. “Pessoas com anosmia [incapacidade de sentir odores] são mais suscetíveis a distúrbios psicológicos, como depressão”, diz Papes.

“Outra aplicação bastante prática do resultado dessa pesquisa seria a utilização dessa proteína isolada da urina de ratazanas para criar um repelente contra camundongo, ratos e hamsters”.

Fonte: Portal Exame

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