Biólogos da Unesp identificam rico ecossistema, que serve de refúgio para inúmeras espécies, na região de Bertioga (SP)

Uma praia que muda de lugar constantemente, seguindo o regime dos ventos e das marés. Assim é a região que circunda o Rio Itaguaré, na região de Bertioga (SP), um paraíso natural extremamente preservado que serve de refúgio e abrigo para várias espécies da fauna e da flora.

O local onde o curso d’água desemboca no mar é classificado, atualmente, como o último corredor ecológico existente entre a Serra do Mar e o Atlântico, fator que motivou o trabalho de uma equipe de pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Há dois anos, o grupo composto por professores e quatro estudantes da instituição de ensino vem realizando diversas ações que buscam, além da preservação do local, um plano de manejo da bacia, que abrange uma área total de 89,91km².

As medições no local são feitas de 15 em 15 dias. Para percorrer toda a extensão do rio, são utilizados caiaques, além de aparelhos de última geração, como o GPS. Segundo o oceanógrafo e professor do curso de ciências biológicas da Unesp Francisco Buchmann, a intenção dos trabalhos de campo é checar a variabilidade do ambiente. Medição da área, amostragem, verificação da temperatura e da salinidade da água, entre outras atividades, são executadas.

Depois de visitas, o grupo chegou a várias conclusões, incluindo a de que a Praia de Itaguaré muda de lugar de acordo com os ventos, as ondas e as marés. A barra do rio, ou seja, a desembocadura dele no mar, possui mais ou menos 500m de largura por 2km de comprimento. Conforme o professor, a migração da praia ocorre principalmente no inverno, onde há maior erosão.

As responsáveis por esse deslocamento são as rochas adjacentes existentes no local, que condicionam totalmente o direcionamento do rio. “A barra se mexe ao longo de centenas de metros. Então, toda aquela praia desaparece e tempos depois surge à esquerda. Depois, esse lado esquerdo desaparece e a praia aparece mais à direita. O que estamos pisando hoje foi depositado no mês passado e não será pisado mais no próximo mês, porque a praia mudará de lugar”, explica o pesquisador. Em períodos contrários ao inverno, porém, a praia costuma ficar parada.

Além desse fenômeno, outras mudanças na paisagem foram logo detectadas pelos pesquisadores no estuário. O grau de salinidade do rio é bastante alta, abrigando, assim, diversas espécies marinhas. “A superfície dele é de água doce. Mas, a 7m de profundidade, a água já é totalmente salina, mais salgada que o mar, por exemplo. Por isso, a mistura de fauna é bem interessante”, destaca Buchmann.

O local é atualmente é considerado área de preservação ambiental (APA), mas pode estar ameaçado, segundo os pesquisadores, pela grande especulação imobiliária que existe no lugar. Para os cientistas, o estuário deveria ser transformado em unidade de conservação(1), por ser um rico ecossistema que reúne manguezal, restinga e mata atlântica e servir de abrigo para várias espécies, algumas raras e ameaçadas de extinção.

GPS

O Rio Itaguaré fica a cerca de 100km da cidade de São Vicente, no litoral de São Paulo. De acordo com Buchmann, as expedições quinzenais ao local costumam começar muito cedo. Por volta das 4h, os pesquisadores já estão de pé. A intenção é realizar as medições ao longo de todo o dia, aproveitando tanto a maré alta quanto a baixa.

A bióloga Kátia Capel, 24 anos, é uma das responsáveis pelo trabalho de medição do contorno do rio, feito com auxílio de um GPS. “Depois de cada coleta, as informações do GPS eram processadas num programa de computador. No GoogleEarth, eu criava uma imagem real da praia, com o desenho do caminho percorrido. Com isso, nós observamos o dinamismo da praia e vimos que a conformação do rio podia mudar completamente em questão de horas”, conta.

Segundo a pesquisadora, tal mudança resulta da ação de parâmetros climáticos e oceanográficos. Eventos de tempestade, por exemplo, podem mudar completamente a morfologia da barra. “Esse dinamismo nos mostra como a área é frágil, e qualquer alteração, por desmatamento e a construção de residências, pode ser extremamente perigosa”, destaca.

Estudante do 7º semestre do curso de ciências biológicas, Gustavo Vilela, 28, também participa das pesquisas no local. Na opinião dele, é possível verificar rio adentro um ambiente bastante saudável. Porém, próximo à Rodovia Rio-Santos, percebe-se uma grande quantidade de construções, como casas de pescadores e restaurantes, que acabam despejando muito lixo no estuário. “Um trabalho será realizado em breve para avaliar o índice de toxicidade das águas, determinando o impacto gerado pela atividade humana”, informa.

Além disso, segundo ele, outro aspecto que preocupa é a tentativa de transformar a área em um condomínio, caracterizando uma continuação de um conjunto de casas já existente, bem próximo ao local. “A urgência em adequar a Bacia do Rio Itaguaré como uma unidade de conservação efetiva é o principal objetivo dos trabalhos que estão sendo feitos na área”, finaliza.

Fonte: Correio Braziliense

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