Calango corteja “noiva cadáver”, afirma estudo feito em Minas Gerais

Ele a abraçou forte, tentando conquistar sua atenção com os carinhos de praxe. Um rival se aproximou dos dois e, repetidas vezes, ao longo de quase meia hora, ele o enxotou dali. Tudo em vão: ela estava morta.

Essa cena de romance gótico foi registrada por biólogos numa estrada de terra do município de Inhapim (MG), e os protagonistas são calangos da espécie Ameiva ameiva, um dos lagartos mais comuns do Brasil. Ao que parece, na ânsia de se acasalar, os machos da espécie acabam virando necrófilos.

“Uma coisa parecida com a mesma espécie já tinha sido vista na Amazônia, só que a fêmea que o macho estava tentando fecundar tinha acabado de ser morta, então não teria dado tempo de ele perceber isso”, explica o biólogo Henrique Caldeira Costa, mestrando da Universidade Federal de Viçosa (MG). No caso descrito por Costa e seus colegas na revista científica “Herpetology Notes”, por outro lado, é possível que a calanga estivesse morta há mais tempo, provavelmente por atropelamento.

Segundo um coautor do estudo, Emanuel Teixeira da Silva, também de Viçosa, os biólogos, de carro, primeiro acharam que se tratava de um único bicho. Pararam para fotografá-lo e só então notaram que se tratava de uma desajeitada tentativa de cópula. “A fêmea estava de língua de fora, com os olhos esbugalhados, claramente morta”, diz Costa, que não estava no local. Apesar de abraçá-la e esfregar seu papo nas costas dela, o macho não chegou a penetrá-la com seu hemipênis (pênis duplo da espécie).

Como se não bastasse o fracasso, ele ainda teve de colocar para correr mais de uma vez um macho menor que também se interessou pelo cadáver.

O engano provavelmente tem várias causas. Primeiro, uma necrópsia da fêmea revelou que ela estava apta a ser fecundada quando morreu. As calangas costumam deixar uma trilha de cheiro quando receptivas, o que, claro, atrai os dois machos. E, exposto na estrada num dia de calor, seu corpo ainda estava quente, o que teria confundido os pretendentes.

Darwin explica

À primeira vista, ter interesse romântico por cadáveres parece um estorvo para o macho, que deveria ser eliminado pela seleção natural. No entanto, especula-se que esses “enganos” necrofílicos sejam um subproduto da tentativa de ser sempre o primeiro a abordar uma fêmea, o que, no longo prazo, acabaria compensando.

Fonte: Folha Online
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