Equipe tapa “nariz” de mosquito transmissor da malária


Um grupo internacional de cientistas, entre os quais um brasileiro radicado nos EUA, achou um modo de “tapar o nariz” do mosquito Anopheles gambiae, transmissor da malária.

As aspas são necessárias porque o inseto fareja suas vítimas usando as antenas, mas isso não altera as possibilidades da descoberta: a criação, por exemplo, de um repelente muito mais preciso contra o bicho.

“O repelente ideal ainda não existe, mas ele deveria produzir poucos efeitos de irritação nos usuários e permitir uma dose de aplicação muito menor do que a exigida pelos repelentes hoje”, afirma Osvaldo Marinotti, biólogo da Universidade da Califórnia em Irvine.

Junto com colegas dos EUA, da Grécia e da Suíça, Marinotti assina artigo na revista científica “PLoS One” que aponta um caminho para esse tipo de avanço.

O que os cientistas fizeram foi demonstrar, em detalhes, como ocorre a captação de cheiros nas antenas do inseto e, com esses dados nas mãos, bloquear de forma específica a detecção de um dos odores que o mosquito reconhece.

Lista

Isso foi possível porque os pesquisadores partiram de uma lista de dezenas de substâncias, conhecidas como OBPs (sigla inglesa de “proteínas que se ligam a odorantes”, ou seja, moléculas portadoras de odor).

As OBPs, explica Marinotti, são a primeira linha de reconhecimento de cheiro no organismo dos mosquitos. As moléculas odorantes basicamente se grudam nas OBPs, que as transportam rumo aos chamados receptores odorantes, posicionados em neurônios especializados. É então que, finalmente, o sinal de “cheiro detectado” chega ao o cérebro do bicho.

O grupo escolheu como alvo inicial a molécula conhecida como AgamOBP1, que parece ficar mais ativa nas fêmeas da espécie (elas, afinal, são as que sugam sangue e, desse modo, transmitem o parasita da malária). E a AgamOBP1 diminui sua atividade justamente depois que as mosquitas se fartam de sangue, sugerindo o envolvimento dela com a procura de vítimas do inseto pelo cheiro.

Simulações e análises de laboratório mostraram que a provável “chave” química que se encaixava na fechadura da AgamOBP1 é uma molécula orgânica conhecida como indol. Foi então que a equipe usou uma técnica de biologia molecular para impedir que o organismo dos insetos iniciasse a produção da “fechadura”.

Passo final: ver o que acontecia quando os insetos sem a AgamOBP1 eram expostos ao indol. “Isso é feito com uma medição dos sinais elétricos enviados da antena ao cérebro dos mosquitos”, explica Marinotti.

E os cientistas viram que, nos animais tratados, esse sinal não passava mais –os bichos tinham se tornado incapazes de farejar o indol. Agora, há várias possibilidades de explorar esse princípio para que o mosquito erre o alvo.

Vítima “inodora”

Identificar com precisão as moléculas que carregam odores rumo ao cérebro dos mosquitos permite uma série de abordagens, diz Osvaldo Marinotti.

“No caso de repelentes, você tem duas opções. A primeira é fazer com que o mosquito não consiga mais sentir o cheiro da pessoa”, afirma ele. Isso poderia ser conseguido com uma overdose de uma substância que se ligasse às OBPs do inseto e as deixasse inativas.

“Outro caminho é empregar algo que seja capaz de produzir um sinal nas OBPs, mas que seja um sinal negativo, um cheiro que impeça o inseto de chegar perto”, ou seja, um repelente clássico.

Finalmente, há também a possibilidade de criar compostos extremamente atraentes para o bicho, conduzindo-o para armadilhas repletas de bactérias e fungos que ele, então, espalharia pela população de mosquitos.

Fonte: Folha Online

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