Biólogo vê esquema de punição social em relação entre peixes

Richard Smith/Divulgação

Um experimento feito em aquário revelou que um pequeno peixe de recife de coral do Pacífico age como o marido machista cuja mulher deixou queimar a comida: dá uma coça na patroa.

O trabalho revelou um caso raro de punição por terceira pessoa, na qual um indivíduo não envolvido na ofensa pune o perpetrador, apesar de a vítima não ser ele próprio.

O agressor em questão é o bodião-limpador, que se alimenta de pequenos parasitas no corpo de peixes maiores. Esses “clientes” fazem até fila para que sejam limpos pelos bodiões, num processo benéfico às duas partes: o mutualismo.

Apesar de comer pequenos crustáceos parasitas, porém, o limpador gosta ainda mais de comer o muco que recobre o peixe maior. Só que, quando isso acontece, o cliente se afasta.

Um casal de bodiões pode trabalhar junto na limpeza. O experimento agora mostrou que, se o macho perde o jantar após a fêmea morder o cliente, ele a pune mandando a moça para longe da área de limpeza.

Trapaça pela ciência

O experimento usou uma placa de acrílico para simular o cliente. Um lado da placa tinha comida mais atraente, pequenos camarões, que simulavam o muco.

Só que, cada vez que a fêmea comia um camarão, a placa era tirada do aquário e o macho também perdia seu jantar. Como resultado, nadava agressivamente atrás da fêmea.

Os biólogos também notaram que a fêmea, depois de comer um camarão e ter a placa removida, tendia a evitar a comida melhor quando a placa era recolocada depois.

“A evolução da punição é fácil de entender, nós praticamente mostramos porque ela ocorre”, disse à Folha Redouan Bshary, da Universidade de Queesland (Austrália), um dos autores de estudo sobre o bodião que sai nesta sexta-feira (8) na revista “Science”.

“Os machos são “vítimas secundárias” quando a fêmea engana um cliente comum. Se o cliente parte, os machos perdem tempo em busca de comida e, por isso, reagem agressivamente”, explica ele.

Ao tornar as fêmeas mais cooperativas em interações futuras, os machos têm benefício direto, pois poderão se alimentar por mais tempo nos clientes futuros.

E, se der vontade de enganar o cliente, quem dará a beliscada no muco será o macho. As fêmeas só não reagem a essa injustiça porque são mesmo menores e mais fracas.

Bshary e seus colegas afirmam no estudo que o estabelecimento desse tipo de punição contra perdas pessoais pode ter sido um passo evolutivo no aparecimento da punição exemplar de malfeitores, como acontece com seres humanos.

Fonte: Folha de S. Paulo

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