Tartarugas da Amazônia estão ameaçadas

Tabuleiro do Umbaubal, às margens do Rio Xingu, Estado do Pará. Considerado o maior centro reprodutor de Tartarugas da Amazônia (Podocnemis expansa) na América do Sul, esse santuário da vida silvestre amazônica pede socorro. Após trágico episódio em 2008, quando 70% dos filhotes desses quelônios morreram em decorrência do alagamento da praia, o local continua vulnerável e sujeito a um desastre iminente.

De cada mil Tartarugas da Amazônia nascidas, apenas duas sobrevivem na natureza. A espécie pode pôr mais de cem ovos em cada ninho, porém pouquíssimas chegam à idade adulta, devido à intensa predação dos ovos e dos filhotes. Além das adversidades naturais, os animais sofrem intensa pressão humana. No Tabuleiro, a caça predatória, a ocupação desordenada das praias e o desmatamento de Áreas de Preservação Permanente (APP) no entorno são fatores que agravam o problema.

Estudos realizados por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA), sob coordenação do professor Juarez Pezzuti, do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (Naea), atestam a gravidade da situação no que tange à perda da diversidade biológica na região do Xingu, com consequências calamitosas às populações ribeirinhas tradicionais e ao equilíbrio ecológico. Em um parecer produzido pelos biólogos, em junho de 2008, recomendou-se o alteamento da praia, ou seja, a deposição de areia do fundo do rio para cima do Tabuleiro, aumentando a sua altura e, com isso, a probabilidade de sucesso de eclosão dos ovos ali depositados. Segundo o coordenador, o não cumprimento das recomendações, este ano, pode comprometer a desova e repetir uma tragédia anunciada.

Juarez Pezzuti alerta para outras situações que podem contribuir para o decréscimo do estoque da Tartaruga da Amazônia no Xingu. De acordo com o biólogo, existe a possibilidade de que, caso a Usina Hidrelétrica de Belo Monte seja, de fato, construída, haja retenção de sedimentos e, com o passar dos anos, comprometa a existência das praias e das ilhas fluviais, onde os animais permanecem no inverno. Para ele, a construção da hidrelétrica representará um grande impacto, não só pela função ecológica da Tartaruga, mas também pela sua importância na subsistência e na cultura das populações tradicionais.

Comercialização – Outro ponto problemático apontado é a existência de um programa oficial amparado por lei, no qual criadores recebem filhotes do Tabuleiro para fins comerciais. “Isso é inconstitucional, já que qualquer animal silvestre, de acordo com a Constituição, é patrimônio da União, não podendo ser doado. Como proibir um ribeirinho de comer ou até mesmo de vender uma tartaruga, se os ricos fazendeiros recebem milhares de filhotes para comercialização na fase adulta?”, critica o pesquisador.

Além da Tartaruga da Amazônia, o Tabuleiro do Embaubal também abriga outras espécies da fauna aquática amazônica em situação de vulnerabilidade, como o peixe-boi (Trichechus Inunguis), o boto-rosa (Inia Geoffrensis) e o pirarucu (Arapaima Gigas). Para protegê-los, os biólogos acreditam que a fiscalização e o manejo sustentável são o melhor caminho. Segundo a bióloga Cristiane Costa Carneiro, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Zoologia da UFPA/Museu Paraense Emílio Goeldi, três espécies de quelônios desovam em praias da região e se reproduzem entre os meses de julho e outubro. Para ela, é necessário aumentar a fiscalização do local, sobretudo no período de migração das fêmeas, quando a pesca é mais intensa.

Segundo o professor Juarez Pezzuti, a criação de uma unidade de conservação de uso sustentável no Tabuleiro do Embaubal, com um plano de manejo comunitário, seria o mais adequado. Esse tipo de manejo prevê a integração dos conhecimentos tradicionais e acadêmicos, envolvendo as comunidades ribeirinhas em todo o processo. “No Tabuleiro, temos tudo para manejar, menos uma legislação adequada. O atual sistema, voltado apenas para preservação, exclui os ribeirinhos e se torna ineficiente. Durante a maior parte do ano, eles pescam clandestinamente e, por consequência, desconhecemos a pressão sobre os estoques, já que é tudo ilegal. Por isso, temos que encarar o desafio de manejar a fauna brasileira com sustentabilidade. Fingir que não há caça e que a proibição resolve a situação é uma atitude irresponsável”, conclui em tom de desabafo.

Fonte: Beira do Rio (Jornal da Universidade Federal do Pará)

Compartilhar no facebook
Compartilhar no google
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no telegram

Pesquisar

Últimos posts

Arquivo de postagens

Siga o CRBio-04

Rolar para cima