Agonizam os últimos remanescentes de florestas urbanas de Belém

Por Dário Dantas do Amaral – Ecólogo, pesquisador da Coordenação de Botânica do Museu Paraense Emilio Goeldi

No início deste ano emissoras locais de televisão de Belém noticiaram a derrubada de árvores de um remanescente florestal dentro de Belém para fins de construção de uma via urbana (complexo viário da Av. Júlio César). Para espanto geral, trata-se de uma Unidade de Conservação Municipal (Parque Ecológico do Município de Belém – criado pela Lei Municipal 7.539/91, localizado entre os conjuntos habitacionais Presidente Médici e Bela Vista, com uma área de aproximadamente 44,06 ha, – o equivalente a mais de 40 campos de futebol, segundo os dados da Secretaria Municipal de Meio Ambiente – SEMMA), um dos últimos fragmentos de área verde do município de Belém.

É lamentável constatar que com a expansão urbana de Belém, a cobertura florestal original está sendo continuamente dizimada, hoje restam menos de 30% da cobertura vegetal original. Atualmente é mais fácil encontrar floresta primária de terra firme nas vizinhanças da cidade de São Paulo (Serra da Cantareira) que nas redondezas de Belém (em plena Amazônia) onde estas florestas já se distanciam a mais de 170 km de raio.

A área é um dos poucos refúgios naturais de animais silvestres (conforme flagrou as imagens da emissora jornalística) em pleno centro urbano de Belém, principalmente várias espécies de pássaros (tucanos, garças, gaviões, papagaios, periquitos, curiós), além de macacos, cutias, tatus e diversos grupos de invertebrados (borboletas, besouros, etc.). Estão sendo abatidas árvores imponentes como virolas, sapucaias, ananins, marupás, piquias, palmeiras como açaí, inajá buriti, além de vistosas orquídeas e bromélias que ocorrem no local.

A eliminação destes remanescentes de florestas urbanas – antes de ser um apelo puramente ambientalista – põe em risco a saúde e a qualidade de vida da população. Doenças como febre amarela, dengue, malária, leishmaniose, estão estritamente relacionada com o desequilíbrio ambiental. Na ausência dos hospedeiros naturais como macacos, tatus e morcegos, o homem será o principal alvo dos vetores destas doenças.

Como agravante grande parte da vegetação que está sendo suprimida corresponde à floresta inundável (várzea/igapó) que desempenha importante função ecológica de proteção de nascentes e a vitalidade de drenagens (dentro da área existe o igarapé do burrinho e o canal de São Joaquim). Com a ausência das árvores pode haver transbordamento (durante o período chuvoso) das águas deste canal o que acarretaria sérios transtornos aos moradores dos arredores, além da proliferação de doenças, como dengue e leptospirose, bastante comuns nestes casos.

É espantoso que isto esteja ocorrendo justamente em um Parque Ecológico de Belém, que deveria ser “disponibilizado à população belenense enquanto um espaço para educação ambiental, visitação, pesquisa e cultura”, conforme consta na página da própria SEMMA (http://www.belem.pa.gov.br).

A expansão urbana – com abertura de novas vias de escoamento do trânsito caótico da cidade – é necessário e desejável, contudo as ações de engenharia devem ser melhor planejadas e principalmente discutidas com a sociedade (que paga os impostos), de forma a proteger os últimos remanescentes verdes da região, vital a qualidade de vida desta população de quase dois milhões de habitantes.

Com todo o avanço da engenharia de transporte no mundo, não haveria um desenho técnico mais inteligente que viabilize este complexo viário sem ter que destruir este importante remanescente florestal da cidade?

Faz-se então um apelo ao Ministério Público para que acompanhe este caso, em contrário estaremos diante de mais uma situação de degradação ambiental. Pela velocidade que trabalham as motosseras em pouco tempo perderemos mais uma das últimas áreas verdes de Belém.

Fonte:
http://www.museu-goeldi.br/sobre/NOTICIAS/19_05_2009.html

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