Pesquisadores da USP descobrem que trompas possuem grande quantidade de células-tronco

Por Rodrigo Craveiro

A notícia logo ganhou os sites dos principais jornais do mundo, lançando luz sobre o futuro da medicina regenerativa e do estudo da infertilidade feminina. Cientistas do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo (USP) descobriram uma rica fonte de células-tronco, até então ignorada e jogada no lixo pelos hospitais, depois de cirurgias: as trompas de Falópio (ou tubas uterinas) — canais que ligam o útero aos ovários. Além de depararem com um novo reservatório de células-tronco, os pesquisadores conseguiram diferenciá-las em músculo, gordura, osso e cartilagem.

Por telefone, a bióloga Tatiana Jazedje, principal autora da pesquisa publicada na revista científica Journal of Translational Medicine, afirmou ao Correio que o achado ocorreu por acaso. “Nosso objetivo não era obter células-tronco. Nós pretendíamos cultivar células normais das trompas de Falópio para que elas nos auxiliassem a cultivar as células-tronco embrionárias humanas.” Os cientistas perceberam, porém, que elas se multiplicavam muito rapidamente.

O passo seguinte foi testar essas células em laboratório. Foi quando se deu a diferenciação. “Provamos que as trompas possuem células-tronco em grande quantidade. A questão não é nem o fato de elas existirem, mas de acharmos que isso abrirá várias perspectivas de estudo da infertilidade feminina”, destaca a especialista. Segundo Tatiana, o potencial dessas estruturas para uso na medicina regenerativa é promissor. “Agora, usaremos essas células em modelos animais, a fim de verificar se elas também podem se transformar em osso, gordura, cartilagem e músculo. Só depois vamos usá-las em seres humanos”, esclarece. Apesar da euforia da descoberta, a bióloga afirma que ainda não há previsão para uma nova terapia regenerativa e defende a continuidade das pesquisas com células-tronco embrionárias humanas. “Temos muito a aprender com elas e não creio que a nova fonte vá contra esse estudo.”

Diretor da Divisão de Medicina Reprodutiva do Centro Especializado em Reprodução Humana e coautor da pesquisa, Paulo Perin contou à reportagem que a recente identificação de células-tronco no útero e no sangue menstrual levou a equipe a imaginar que as trompas também pudessem fornecê-las. “Separamos os fragmentos de seis tubas uterinas das pacientes que se submeteram à laqueadura e à retirada das trompas. Então, identificamos essas células e as cultivamos, para verificar a expansão de sua disseminação em cultura”, afirma. Segundo ele, a quantidade de células-tronco recuperada a partir do material descartado foi muito grande. “A multiplicação dessas células foi tão intensa que temos um enorme estoque de células-tronco”, comemora Perin.

O especialista também defende as pesquisas com as células-tronco embrionárias, mas admite que o atual estudo resolve a exigência de se produzir embriões para tratar um determinado paciente. Agora, os cientistas querem centrar esforços no uso dessas estruturas para o cultivo de embriões. “Pretendemos avaliar se embriões de pacientes inférteis se desenvolvem melhor em cultura de células-tronco retiradas das trompas”, observa.

Em Boston, minutos antes de embarcar para o Brasil, a geneticista Mayana Zatz — coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano — destacou a capacidade de diferenciação das novas células-tronco. “O avanço é importante, mas nossa equipe está trabalhando para fazer mais descobertas”, garante. Ela também defende as pesquisas com células-tronco embrionárias, diante da ampla capacidade de diferenciação dessas estruturas.

Fonte: Correio Braziliense

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