Energias Alternativas & Petróleo

Por Mauro Kahn & Pedro Nobrega

Com a crise financeira, praticamente todas as expecta tivas mundiais assumiram novos contornos. Aquilo que se projetava para o mundo há um ano atrás passou a ter de ser necessariamente revisto, e nada pode ser afirmado ou compreendido com exatidão, uma vez que não se sabe o rumo ou efeito que as soluções adotadas irão tomar.

A questão das fontes de energia alternativa tornou-se, neste âmbito, talvez a mais delicada. Com a dificuldade de se obter créditos para investir e com os preços do petróleo e do gás natural a níveis baixos, a iniciativa de construir um mundo mais sustentável corre sério risco de paralisação. Vozes dos mais diversos países se levantam para alertar que está em jogo a qualidade de vida da nossa espécie, mas a questão é complexa e foge ao controle dos líderes globais. Afinal, a dinâmica do nosso capitalismo corre à revelia das necessidades da natureza, para o bem e para o mal.

Nos EUA, o presidente Barack Obama já se comprometeu a não deixar que o meio-ambiente seja posto de lado. E, de fato, o governo americano vem eliminando barreiras e estimulando o crédito para as energias solar e eólica. No entanto, depende-se também de outros fatores. A energia solar, por exemplo, é consideravelmente cara, e seus investidores – que antes apareciam aos montes na mídia americana – agora fogem retirando-se timidamente de cena. A energia eólica, talvez a que esteja em melhor situação, ainda é considerada u ma fonte mais barata e sua exploração ainda interessa. Ainda assim, o impacto vem sendo inevitável: o investidor T. Boone Pickens já reduziu de 60 para 40 milhões seu plano de investimento no setor e paralisou a construção de uma fazenda movida a energia eólica no Texas.

O etanol é um caso a ser estudado à parte na economia americana, talvez a maior vítima da crise (entre as energias alternativas). Já questionado anteriormente por ocupar parte do solo que poderia destinar-se à produção de alimentos, agora perde ainda mais força com o aumento no preço do milho e as novas cotações tanto do barril de petróleo quanto do gás natural. O que vem acontecendo com o etanol desperta nos a mbientalistas americanos o medo de que a situação no país – assim como no resto do globo – desenvolva-se de maneira idêntica à que ocorreu na década de 80, quando a queda no preço do petróleo anulou anos seguidos de avanço em direção às energias renováveis.

Na China, país de maior desenvolvimento global, a contradição é também forte. Enquanto o setor de energias alternativas é um dos que mais gera novos empregos, haveria um aumento sensível no desemprego com o fechamento de indústrias que funcionam por meio de energia poluentes. Se antes da crise a situação poderia ser conduzida, agora a falta de dinheiro atravanca os planos.

No ano passado, segundo o relatório anual da BP, as fontes de energia renovável cresceram em apenas 5%, contra 50% dos três anos anteriores. Para os defensores de uma nova atitude global em relação ao consumo de energia, os dados são catastróficos. E o apelo de que os investimentos não sejam abandonados. Os principais argumentos parecem ser os de que:

1) No momento em que a crise passar, problemas como a volatilidade das cotações do petróleo e do gás natural em função dos commodities vão trazer a mesma instabilidade de antes.
2) O meio-ambiente não vai esperar vivermos em uma situação econômica ideal para aí então nos encaminharmos para a mudança.
3) As energias renováveis não estarão submetidas à relações conflituosas, uma vez que não se pode controlar o sol ou o vento; nesse caso, este investimento pouparia muito do investimento militar.

Os argumentos são razoáveis e países como a Alemanha, líder em energia solar, parecem concordar com eles. No entanto, garantir que seja este o caminho a ser tomado é difícil até mesmo para os ativistas ambientais. Hoje o mundo parece dividido em dois caminhos: o impulso de garantir a saúde de nossa economia atual para manter uma vida tal qual a conhecemos no presente e a possibilidade de forjar uma nova vida, a partir de uma indústria redimensionada, no futuro.

A solução mais palpável para a questão parece ser, em um primeiro momento, um estudo das possibilidades futuras para que se compreenda melhor a extensão da crise e as possibilidades que elas nos deixam. Apenas então será possível adotar um dos caminhos. A mudança chegará; esta sem dúvidas é inevitável. O momento certo, a data desta mudança, é que ainda falta ser fixada.

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