2009: ANO INTERNACIONAL DAS FIBRAS NATURAIS

A Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas declarou, em dezembro de 2006, que em 2009 seria comemorado o Ano Internacional das Fibras Naturais e deixou a cargo da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação – FAO a tarefa de realizar o evento. Além do vasto e tradicional uso no vestuário da população, as recentes inovações para aplicação no campo industrial e os benefícios ambientais decorrentes de seu uso, a relevância da produção de fibras naturais para os pequenos agricultores, especialmente aqueles residentes em países pobres ou em desenvolvimento, na luta diária pelo incremento da renda, motivou o empreendimento.

Na página do evento – http://www.naturalfibres2009.org – a FAO observa que um dos objetivos é criar uma consciência e estimular a demanda pelo uso de fibras naturais. Também foram disponibilizadas informações explicando os motivos que levaram à decisão de celebrar o ano internacional das fibras naturais, a importância do uso dessas fibras e o calendário de atividades que serão realizadas ao longo do ano de 2009 em todo mundo, – no Brasil está previsto para os dias 08, 09 e10 de setembro o Congresso Mundial sobre Fibras Naturais, em Salvador – BA. Além disso, a FAO oferece dados sobre diversas fibras naturais vegetais e animais incluindo: histórico do uso, formas de produção, uso atual e perspectivas.

Para o Brasil, o objetivo da FAO de estimular a demanda pelo uso de fibras naturais e demonstrar a relevância da produção dessas fibras, principalmente para os pequenos agricultores, é de significativa relevância, visto que fibras vegetais como algodão, linho, sisal, juta e cânhamo e fibras de origem animal como a lã de carneiro, a seda e a lã de coelho angorá são produtos que podem ser largamente produzidos no território nacional.

De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento – CONAB, mesmo diante da atual crise de financiamento e dos baixos preços de comercialização da pluma, a área cultivada com algodão no Brasil somará, na safra 2008/2009, 856,6 mil hectares, que permite estimar uma oferta de algodão em pluma de 1.246,5 mil toneladas.

Entretanto, não só o algodão coloca o Brasil em destaque mundial no campo da produção de fibras naturais, a produção de sisal, que se concentra nos Estados da Bahia, Rio Grande do Norte e Paraíba, mantém o Brasil no topo da lista dos produtores mundiais. Com uma produção anual de coco que coloca o país entre os dez maiores produtores mundiais, o mercado industrial da fibra de coco vem se desenvolvendo rapidamente e sua exploração já tem significativa relevância econômica.

No que diz respeito às fibras de origem animal, a produção de fio de seda no Brasil tem ganhado espaço e atualmente o país está entre os maiores produtores do fio. Contudo, a produção de outras fibras animais como a lã de carneiro e a lã de coelho tem enfrentado dificuldades e a perspectiva, embora haja excelentes condições para a produção nacional, não são animadoras, principalmente pela falta de incentivo e estrutura da cadeia produtiva.

De acordo com a FAO, desde o início dos anos 1960 o uso de fibras sintéticas, obtidas a partir de polímeros sintéticos como o nylon, tem ganhado terreno e os produtores de diversas fibras naturais vêm encontrando dificuldades para criar e manter mercados.

A competição com as fibras artificiais não é fácil, por exemplo: o que é apresentado como “tecido de bambu” na realidade não é tecido inteiramente feito com fibra natural de bambu, mas sim uma viscose cujo processo de produção utilizou celulose de bambu como matéria prima. Para a produção da viscose, pode-se utilizar qualquer tipo de celulose, como palha de milho, fibras de eucalipto e o línter da semente de algodão, e o final do processo de produção resultará um fio de viscose com as mesmas características, independentemente da matéria prima que se utilizou. Para os defensores do uso de fibras naturais, a viscose é uma fibra artificial de celulose, cuja produção usa produtos poluentes, não pode ser confundida com um produto natural. Evidente que a produção da viscose de bambu não deve ter sua relevância industrial reduzida, porém, ao ser oferecida a informação correta ao consumidor permite-se que cada um se mantenha fiel ao seu nicho de consumo sem ser induzido a erro.

No Brasil, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, por meio do Conselho Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial – CONMETRO, com o objetivo de atualizar a regulamentação têxtil, publicou a Resolução nº 02, de 06 de maio de 2008, que dispõe sobre a etiquetagem de produtos têxteis. Ação que representa uma boa notícia para os consumidores e, também, para o setor produtivo que pretenda melhor organizar sua cadeia de produção e mercado.

Resta observar que a participação de instituições brasileiras no Ano Internacional das Fibras Naturais e divulgação de suas informações e resultados muito poderá contribuir para fomentar o interesse pela construção e reconstrução de setores produtivos de fibras naturais, que atualmente não são devidamente explorados no Brasil ou estão combalidos pelas dificuldades encontradas.

Por Reginaldo Minaré
Advogado e Diretor Jurídico da ANBio
rminare@uol.com.br

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