quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Opinião: Paixão afeta imbróglio das capivaras da Pampulha


Durante os dois últimos anos assistindo e participando desta situação envolvendo as capivaras da região da Pampulha, tive a oportunidade de aprender muito, ao conviver com vários profissionais da área ambiental e da saúde, como meus colegas biólogos, veterinários, médicos e também com pessoas sem formação específica, mas com o olhar crítico da sociedade e, principalmente, bom senso e sensibilidade, em uma visão interdisciplinar unificada com vários tipos de olhares.

Mas quem está de fora do problema não imagina como esta fusão entre saúde, meio ambiente e sociedade é difícil. Se de um lado temos a demonização das capivaras por parte de alguns setores da população, do outro temos a santificação por parte de algumas ONGs protetoras dos animais, em um processo de disputa com paixão que, no final, só prejudica as capivaras.


Ao longo da minha vida profissional aprendi que em todo processo de radicalização reduzimos o uso de dois dos nossos sentidos, a audição e a visão; não ouvimos a opinião da turma que "protege" as capivaras e nem a da turma que quer que elas sejam expurgadas do seu ambiente natural, que são os cursos d’água, e acabamos por não enxergar os dois lados do problema, o que nos atrapalha a enxergar as soluções.

Mas o pior é que, ao deixarmos de usar esses dois sentidos, aguçamos nossa capacidade de falar, e aí surge todo e qualquer tipo de opiniões, sem nexo, sem embasamento, mas novamente com paixão, o que é muito perigoso.

Nessas discussões em blogs, e principalmente nas redes sociais, surgem todo tipo de opinião, de especialistas de todo tipo, com todo tipo de formação ou sem formação. Pregam-se soluções simples para um problema complexo. Alguns propõem simplesmente copiar a solução adotada em outras cidades para o mesmo problema, mas em locais com contextos e condições ambientais completamente diferentes.

Como prova da complexidade do problema, ao buscar respostas no meio acadêmico encontramos opiniões completamente dispares... prato cheio para os apaixonados (olha nossa amiga paixão de novo). Basta escolher uma e defendê-la como a única, melhor, mais adequada e eficiente.

fotos: Carlos Avelin/PBH

Poderia a imprensa fazer o seu papel, de divulgar e esclarecer. Mas em uma questão polêmica onde as fontes são muitas e nem todas confiáveis, as pessoas acabam incorporando a paixão (mais uma vez) e temos um grande imbróglio envolvendo a cidade toda, pois o que acontece na Pampulha , ainda mais com o titulo da Unesco, tem interferência em toda a capital.

E no meio desse caldeirão de opiniões apaixonadas, eis que surge um novo tempero: a judicialização do problema. A partir de então temos que opinar com cuidado senão terminamos como o caso da apresentadora de um programa de TV que criticou a decisão de um Ministro do Supremo e foi condenada a indenizá-lo.

Juízes de outro planeta, digo, de outra cidade, baixam liminares totalmente "in": incompreensíveis, inservíveis  e incumpríveis, como se esse problema fosse fácil de ser resolvido em tribunais. Lembrando que esse processo de judicialização teve início com os grupos que começaram a lidar com as capivaras há alguns anos, e novamente foi a paixão que arrastou o problema para os tribunais. Assim como em uma separação litigiosa, quem sofre são os filhos, no caso, as capivaras.

Agora temos em vigência uma liminar que manda confinar as capivaras, quando o tecnicamente correto (e igualmente incumprível) deveria ser o confinamento dos carrapatos.

O pior é que estamos interferindo em um sistema biológico que ainda conhecemos pouco, com visões fragmentadas e setorizadas, e com necessidade premente de resolver a situação ou garantir uma condição de tranquilidade para a população, afinal, houve uma morte comprovadamente causada pela febre maculosa.

Sim, existem propostas de solução. Mas nenhuma com a rapidez que a sociedade exige. Elas só serão viáveis e eficientes se tratarmos o problema com olhar técnico, sensível, multidisciplinar e sem esse elemento que só tem atrapalhado a vida das capivaras até agora, a paixão!

Gladstone Corrêa de Araújo
Diretor do Jardim Zoológico de Belo Horizonte
Membro da Diretoria do CRBio-04

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