terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

ESTUDO AVALIA COMPORTAMENTO DE PEIXES



ESTUDO AVALIA COMPORTAMENTO DE PEIXES
NA USINA DE TRÊS MARIAS

O Peixe Vivo divulga a pesquisa realizada pela bióloga e coordenadora do programa Raquel Coelho Loures Fontes:  “Avaliação Temporal e Espacial da Comunidade de Peixes no Canal de Fuga da Usina Hidrelétrica de Três Marias, Rio São Francisco, MG”.
Parte do estudo “Comportamento de peixes a jusante de barragens: subsídio para conservação”, esta pesquisa teve como objetivo compreender melhor o comportamento dos peixes, num aspecto temporal e espacial, nas áreas de maior risco de morte de peixes próximo à usina.

O estudo “Comportamento de peixes a jusante de barragens: subsídios para a conservação da ictiofauna”, desenvolvido em parceria entre Cemig, UFMG, UFLA e CEFET-MG, tem como objetivos:

- compreender as variações temporais e espaciais na abundância de espécies de peixes imediatamente a jusante da barragem de Três Marias;
- entender como os peixes se comportam a jusante das barragens quando submetidos a diferentes regimes de operação;
- propor medidas que levem à diminuição do risco de acidentes com entrada de peixes em tubos de sucção, entre outros.


AVALIAÇÃO TEMPORAL E ESPACIAL DA COMUNIDADE DE PEIXES NO CANAL DE FUGA
DA USINA HIDRELÉTRICA DE TRÊS MARIAS, RIO SÃO FRANCISCO, MG

Introdução e objetivo
A implantação de hidrelétricas causa uma série de modificações no ambiente e a operação de usinas pode causar impactos diretos sobre os peixes presentes no canal de fuga, que podem ter acesso ao tubo de sucção ou chegar às turbinas. Assim o conhecimento sobre a ictiofauna a jusante pode embasar medidas protetivas para minimização de impactos.

Desta forma, este trabalho teve como objetivo geral estudar as variações temporais e espaciais na comunidade de peixes no canal de fuga da Usina Hidrelétrica de Três Marias, por meio da ecossondagem, para subsidiar medidas que levem a redução de impactos gerados pela sua operação.


Metodologia
A ecossondagem foi a técnica selecionada para alcançar os objetivos, e seus resultados foram corroborados pela captura de peixes com redes de emalhar. Esta é uma técnica hidroacústica que consiste na utilização do som transmitido na água para detectar organismos na coluna d’água, por meio de uma ecossonda.

Em sistemas aquáticos esta técnica está cada vez mais sendo utilizada para aquisição de informações, desde batimetria e classificação de substratos a abundância e distribuição da biota, incluindo macrófitas, zooplâncton e particularmente, peixes.

No Brasil, a ecossondagem ainda é insipiente, sendo que a maioria das publicações está relacionada a estudos em ambientes marinhos. Apesar da diversificada ictiofauna nos rios brasileiros, com mais de 2400 espécies de peixes descritas, poucos estudos tratam de estimativas de abundância e densidade de peixes em ambientes de água doce no Brasil.

Foi então utilizada uma ecossonda, Biosonics Científica Digital DT-X, equipada com um transdutor digital split beam 6°, 123 kHz para realização de prospecções acústicas no canal de fuga da UHE Três Marias, durante 18 campanhas. Nestas também foram coletados peixes por meio de redes de emalhar, armadas no remanso do canal de fuga, com esforço total de 100 m lineares de rede, sendo 10m de cada malha: 3, 4, 5, 6, 7, 8, 10, 12, 14, 16 cm (entre nós opostos). A coleta dos dados ocorreu ao longo de 24h em intervalos de quatro horas, nos seguintes horários: 1, 5, 9, 13, 17 e 21h. Dados abióticos foram coletados para avaliar a relação com os dados bióticos.


Resultados
Os resultados encontrados mostraram que a abundância de peixes presente no canal de fuga na estação chuvosa (novembro a março) foi significativamente superior à estação seca.

A composição de espécies também difere entre as duas estações, sendo os Siluriformes mais abundantes, apesar da maior riqueza de Characiformes. Considerando as duas ordens mais frequentes, a maior captura de Characiformes se deu no período da manhã com pico de atividade de 05:00h às 09:00h. Os Siluriformes apresentaram mais atividade à noite principalmente das 17:00h às 21:00h.

Como foi verificado pelas prospecções acústicas que o hábito noturno era predominante em ambas as estações, os dados das coletas de peixes podem sugerir que a maior quantidade de indivíduos detectados à noite pela ecossonda seja de Siluriformes.

Nenhum dos parâmetros físico-químicos da água apresentou relação com a abundância total dos peixes no canal de fuga, enquanto a vazão total e a pluviosidade explicaram mais de 70% da variação observada no número de indivíduos capturados neste local.

Este aspecto é importante, pois chuva e temperatura podem desencadear a migração para a desova. Foi verificado que na estação chuvosa, a frequência das espécies migradoras na comunidade subiu de 0,7 para 18,3%, sendo que Pimelodus maculatus (mandi) representou 14,5% da abundância.

A avaliação das informações obtidas neste trabalho pode subsidiar medidas de manejo como, por exemplo, priorizar programação de manobras como drenagem de máquina em períodos de menor abundância de peixes no canal de fuga, ou seja, de abril a outubro e reduzir o número de partidas de novembro a março.

A ecossondagem pode ser uma técnica útil para amostrar os peixes à jusante de barragens desde que a interferência por bolhas e vazão não seja elevada a ponto de impedir a detecção dos ecos. Contudo, a utilização de técnicas alternativas para coleta de dados biológicos e identificação dos peixes pode corroborar as informações obtidas pela ecossondagem, como observado para as redes de emalhar.

A busca de informações sobre a comunidade e comportamento de peixes à jusante das barragens pode aumentar o embasamento das argumentações entre as áreas ambientais, de geração e órgãos reguladores do setor elétrico, para definições de procedimentos ambientalmente menos impactantes e com melhores relações custo-benefício operacional-ambiental.

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