terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Desafios do Consumo Sustentável



Por Antônio Malard (Coordenador da área de Meio Ambiente do IETEC)

A cada dia que passa, as sociedades contemporâneas tornam-se mais exigentes e conscientes. De um lado, desejam consumir todo tipo de produto, bem ou serviço. E de outro, ter um ambiente saudável e preservado. Portanto, querem conforto e bem-estar sem os efeitos negativos associados à produção, como poluição, trânsito, doenças, etc.

O consumo sustentável configura-se como um elemento imprescindível para um desenvolvimento equilibrado, mas para que ocorra, é necessário o engajamento não só dos consumidores, mas também da indústria, do governo e do varejo. Dessa forma, na busca pela sustentabilidade, não existe somente um vilão, pois cada um destes atores tem um papel importante.

Muitos especialistas defendem que a teoria das ações públicas é mais eficaz que as estratégias individuais e comportamentais, pois pode provocar mudanças mais significativas no impacto ambiental da produção e do consumo com um custo menor, por meio, por exemplo, da melhoria dos transportes públicos em detrimento do transporte individual.

Além disso, as ações públicas exercem grande influência na sociedade, podendo alcançar melhores resultados por meio de subsídios, incentivos, taxas, campanhas educativas, certificações (rotulagens ambientais), entre outras.

Atualmente, está em alta o termo “consumo verde”, em que o consumidor desempenha o papel principal de agente de transformação e suas demandas forçariam a modernização ecológica das indústrias. Mas a realidade não é tão simples assim, pois a ideia de consumo sustentável não se resume a mudanças no comportamento do indivíduo. Entretanto, é importante ressaltar que o consumidor não deixa de ter um grande peso para o alcance de ganhos significativos.

No âmbito das ações públicas, existem vários compromissos protocolares em nível mundial, em decorrência do Processo de Marrakech, e em nível nacional, fruto principalmente do Plano de Ação para Produção e Consumo Sustentáveis (PPCS), lançado em 2011 pelo Governo Federal. Mas a implementação de práticas de Produção e Consumo Sustentável, principalmente no Brasil, ainda é lenta, além de serem parcialmente neutralizadas ou até mesmo revertidas em razão do crescimento da produção e do consumismo exacerbado que resultam na intensificação da exploração dos recursos naturais e aumento da geração de resíduos.

Do ponto de vista das empresas, o consumo sustentável parece ser contra os negócios, mas trata-se de uma excelente oportunidade para inovação e crescimento estratégico. Elas precisam despertar para novas tecnologias, novos produtos, e adotar uma linha de produção mais limpa. Existe um mercado para isso, crescente e lucrativo, mas é preciso conhecer as reais necessidades do consumidor, que está mais atento e começa a identificar a diferença entre uma peça publicitária “esverdeada” e um programa eficiente de produção de bens e serviços sustentáveis.

Em pesquisa divulgada pelo Instituto Akatu, no Brasil apenas 5% dos consumidores estão engajados e preocupados com questões relacionadas à sustentabilidade na hora de comprar um produto, bem ou serviço. Mas essa proporção vem crescendo, apesar da desconfiança ainda ser grande: apenas 8% acreditam nas informações prestadas pelas empresas em rótulos e propagandas. Já na Europa, os consumidores estão bem à frente em termos de exigir a sustentabilidade nas empresas: alguns países possuem cerca de 60% de compradores conscientes.

Para aumentar essa proporção, existem dois grandes obstáculos a serem superados: ainda faltam produtos que realmente sejam mais sustentáveis e uma comunicação mais efetiva desse benefício como valor adicional. Mudar o comportamento dos consumidores é um grande desafio, e não só para o governo. Atualmente, as empresas estão se tornando muito preocupadas com sua pegada ecológica, mas precisam trabalhar para modificar esse comportamento em busca da sustentabilidade.

Dessa forma, para que o consumo sustentável torne-se realidade, não basta uma conscientização da sociedade, sendo necessária a oferta de produtos, bens e serviços mais “limpos”, informação sobre eles, e uma viabilidade econômica para a população.
Postar um comentário