terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Chineses criam macacos geneticamente modificados para estudo de doenças humanas



Cientistas chineses criaram pela primeira vez dois macacos geneticamente modificados para o estudo de doenças humanas. A pesquisa, publicada na revista “Cell”, utilizou o método Crispr - que permite modificar genes específicos sem alterar outros pedaços do genoma. Este é o primeiro passo para a criação de modelos geneticamente modificados de primatas para ajudar no diagnóstico e tratamento de enfermidades como os males de Alzheimer e Parkinson, e amplia o debate sobre a ética em testes de animais.

O estudo foi realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Nanquim, na China, em conjunto com laboratórios de pesquisas genéticas de biomédicas do país e teve como alvo os macacos cinomologos (Macaca fascicularis) por seu tamanho e semelhanças com os humanos.

Para criar os dois filhotes, os cientistas modificaram três genes relacionados à doenças como o diabetes e o câncer em quinze embriões. O sequenciamento de DNA comprovou que as mutações tinham sido bem-sucedidas para dois genes em oito deles. Os embriões foram então inseridos em fêmeas e apenas dois sobreviveram.

Método revolucionário para a medicina genética

A técnica Crispr foi descoberta inicialmente como parte da defesa imunológica natural de algumas bactérias contra vírus invasores. Em 2012, cientistas liderados por Jennifer Doudna, da Universidade da Califórnia, publicaram um primeiro estudo mostrando que ela na verdade funcionava em qualquer área de um genoma se associado a uma enzima de restrição (capaz de cortar uma molécula num local bem definida) chamada CAS9.

O método torna possível editar qualquer parte dos pares de cromossomos sem ter depois mutações inesperadas ou falhas. Ele se tornou popular no ano passado na criação de ratos e camundongos geneticamente modificados, e foi a primeira vez que funcionou em primatas.

Como os macacos não apresentaram nenhuma outra mutação em seu genoma, os pesquisadores acreditam que estão mais próximos de tentativas de recriar doenças humanas que ainda não são compreendidas por completo.

“Com a precisão genética do sistema Crispr-CAS9, esperamos que muitos modelos de doenças possam ser gerados em macacos, o que trará um avanço significativo ao desenvolvimento de estratégias terapêuticas em pesquisas biomédicas”, escreveu Weizhi Ji, um dos autores da pesquisa, do Laboratório Yunnan Key de Pesquisas Biomédicas em Primatas, na China.

Polêmico teste em animais

Apesar de comemorado pela comunidade científica, o método é controverso. Grupos que se opõem ao teste de animais temem que ele amplie o uso de macacos em pesquisas.

- Embora os avanços tecnológicos na engenharia genética devam ser aplaudidos e admirados, sua posterior utilização para a produção de macacos geneticamente modificados é questionável - afirmou Andrew Bennett, do Centro Nacional de substituição , aperfeiçoamento e redução de animais em pesquisa (NC3Rs) ao “Guardian”. - Seria mais interessante o aumento de recursos na produção de modelos baseados em tecidos e células humanas, em vez de tentar desenvolver espécies de animais de laboratório mais sofisticados. Se você está trabalhando em doença humana, então é necessário o uso humano para prever respostas humanas.

Apesar de acreditar que modelos de primatas são essenciais para recriar distúrbios cerebrais de humanos, Nelson Freimer, diretor do Centro de Genética da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, acredita que os macacos só serão utilizados para pesquisa em último caso:

- Vai ser muito crítico definir os problemas para os quais a técnica será utilizada, assim como acontece com a pesquisa animal - disse. - Você precisa usar todas as alternativas antes de propor a pesquisa animal. O uso de macacos será reservado para doenças terríveis nas quais não conseguimos avançar de outra maneira.

No entanto, Troy Seidle, diretor de pesquisa e toxicologia na Humane Society International (HSI), pede a proibição total da manipulação genética de macacos.

- Você não pode manipular geneticamente um primata altamente sensível sem comprometer o seu bem-estar, talvez de forma significativa. Primatas transgênicos são tão inteligentes, sensíveis ao sofrimento físico e psicológico que seus pares não modificados - ressaltou Seidle. - Na verdade, o escopo para o sofrimento dos animais é maior porque a engenharia genética dá aos pesquisadores um poder quase ilimitado para criar animais doentes com sintomas potencialmente devastadores e incapacitantes, que podem incluir mutações fenotípicas totalmente inesperados. É importante notar também que esta pesquisa está sendo pioneira na China, onde não há atualmente nenhuma lei ou controle ético em experiências com animais.

Fonte: O Globo
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