quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Aquecimento global pode levar a nova distribuição de patógenos



Professor da Faculdade de Engenharia da Unesp de Ilha Solteira, Paulo Ceresini publicou o artigo ‘Ancient Dispersal of the Human Fungal Pathogen Cryptococcus gattii from the Amazon Rainforest’ no periódico internacional PLOS ONE. A pesquisa foi ainda divulgada em reportagem de Andrew S. Wiecek no periódico Latin American Science e mereceu um twitter do representante do escritório brasileiro do New York Times.

O artigo mostra que, ao longo das últimas duas décadas, um fungo mortal anteriormente apenas encontrado em climas tropicais e subtropicais começou infectar os seres humanos em outras zonas climáticas,como em Vancouver, Canadá, de clima bem mais frio.

Em 1999, um fungo altamente infeccioso chamado Cryptococcus gattii apareceu na Ilha de Vancouver, no Canadá, tendo, em 2007, matado 19 pessoas e infectado mais de 300 seres humanos e animais na ilha.

O fungo desde então se espalhou para os EUA com dezenas de casos notificados na Califórnia, Idaho , Oregon e Washington. Anteriormente, essas infecções tinham ocorrido apenas em climas tropicais ou subtropicais, onde o fungo reside, normalmente em ocos de árvores.

O estudo do qual o professor da Unesp participa relatou que o C. gattii tem como origem a floresta tropical da região norte do Brasil , onde a diversidade genética do patógeno é relativamente alta. Aponta ainda que o aquecimento global pode ter desempenhado um papel na disseminação do fungo também.

Lembra que a América Latina é a região com o terceiro maior número de infecções no mundo causadas por meningite criptocócica relacionadas com a Aids. Embora a contaminação possa levar nesses casos à morte, se detectada cedo, pode ser tratada com sucesso com fungicidas .

Para Ceresini, a disseminação global de variações genéticas do C. gattii deve ser considerada com preocupação, pois o fungo revela grande adaptação, o que lhe permite sobreviver na floresta amazônica e na Ilha de Vancouver, podendo habitar nichos ecológicos distintos, como várias espécies de árvores, cascas, espaços ocos, correntes de água e ar, pássaros e outros animais.

A reprodução sexual do C. Gatti explica a sua alta variabilidade genética e capacidade de adaptação a ambientes, assim como a sua virulência cada vez maior.

Enquanto a maioria dos patógenos bacterianos reproduz -se assexuadamente, o C. Gattii, por ter reprodução sexuada, atinge maior diversidade genética .Isso teria facilitado a sua rápida adaptação a ambientes de clima frio.

Ceresini e seus colegas pesquisadores realizaram uma análise genética de múltiplas populações do C. gattii a partir de uma variedade de localizações geográficas bem como reanálise de conjuntos de dados previamente publicados.

Isto permitiu medir a variação genética em um conjunto de genes e criar perfis genéticos de cada cepa. Ao comparar esses perfis, os pesquisadores determinaram que a cepa altamente virulenta descoberta na ilha de Vancouver parecia com aquela encontrada na população brasileira.

Portanto, a alta diversidade genética de C. gattii certamente permitiu que ele tenha se espalhado para regiões não-tropicais.

Os autores advertem que o C. gattii pode ser apenas parte da primeira onda de expansão de patógenos que podem se espalhar com as mudanças contínuas do clima do planeta.

“Como espécies de fungos podem se adaptar a uma ampla gama de temperaturas, é possível dizer que o cenário atual de aquecimento global possa afetar a distribuição e a sobrevivência de patógenos de plantas. Consequentemente novos patógenos podem surgir como resultado da mudança climática”, conclui Ceresini.

Leia texto na Latin American Science

Artigo completo na PLOS One

Fonte: Unesp
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