segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Estudo premiado indica novas oportunidades na atuação de redes que pesquisam medicamentos da biodiversidade



O Brasil tem a maior biodiversidade do planeta. No entanto, buscar na natureza respostas para a cura de doenças não é tarefa simples: requer empenho e diálogo com as diferentes esferas da sociedade. No Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz) esta teoria se materializa em forma de trabalho em redes. 

Esta concepção inspirou o geógrafo Thiago Monteiro Mendes a elaborar um estudo mais aprofundado sobre o assunto. Com isso, Sistemas Nacionais como dispositivo para promoção de inovações e externalidades positivas: o caso das Redesfito foi premiado na sétima edição do ENIFarmed, ocorrida recentemente em São Paulo. O trabalho foi realizado em co-autoria por Glauco Kruse Villas Boas e Rosane Abreu, ambos do Núcleo de Gestão em Biodiversidade e Saúde de Farmanguinhos (NGBS).

Já que a biodiversidade deve ser pensada conjuntamente, o objetivo é unir forças para atender às demandas da população. Com essa premissa, Mendes informa que não se trata de uma metodologia linear, mas um processo complexo em rede, envolvendo diversos atores. Assim, diferentes esferas da sociedade estão envolvidas no processo, como o próprio Estado, universidades, médicos, produtores agrícolas, indústrias e consumidores. 

"Apesar de terem, muitas vezes, uma visão fortemente ligada à inovação tecnológica, tais sistemas em redes representam um modelo novo de gestão e uma janela de oportunidades, relacionados ao desenvolvimento sócio-econômico dos territórios contemplados. Tais oportunidades, concretizadas, representam externalidades positivas, geradas pelos processos de inovação", observa.

O estudo do grupo de Mendes vai além de avaliar a produtividade de uma cadeia de inovação somente por seu produto tecnológico efetivamente desenvolvido. Para ele, é fundamental considerar as externalidades geradas pelo trabalho em rede visando à inovação. A ideia é mostrar que inovação e desenvolvimento são conceitos que podem caminhar juntos.

"Alguns projetos que ocorrem no âmbito das Redesfito, muitas vezes, não estão diretamente relacionados à inovação tecnológica, mas promovem o desenvolvimento dos territórios envolvidos, estruturando as bases para a inovação em medicamentos da biodiversidade", frisa. Segundo ele, um exemplo é a produção de conhecimento por meio de cursos.

Outro exemplo é a produção sustentável e recuperação de ecossistemas. "Estamos trabalhando no reflorestamento, por meio de plantio de espécies medicinais, de uma área de agricultura familiar, no município de Itapeva, em São Paulo. Temos outro projeto com finalidade semelhante no sul da Bahia", revela. Também resultado dessa estratégia é a abertura de diálogos com diversas prefeituras para desenvolver políticas locais de fitoterapia. 

"Além disso, uma consequência deste trabalho é a estruturação de sistemas agroecológicos e agroflorestais em áreas de contextos políticos e sócio-ambientais hostis aos pequenos grupos de agricultores e à sustentabilidade ambiental", assinala.

As Redesfito representam a forma concreta de promover a inovação em fitomedicamentos a partir da biodiversidade brasileira. O grupo busca a construção de um modelo de gestão capaz de apoiar o programa que caminha junto ao Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Seus objetivos, portanto, estão ligados a articulação, discussão, desenvolvimento de ações interinstitucionais nacionais, regionais e locais voltadas para projetos que contemplem toda a cadeia produtiva, envolvendo os principais biomas brasileiros.

Todo esse trabalho de articulação e organização do Sistema Nacional das Redes é norteado pela Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF). O NGBS, de acordo com Portaria MS/GM Nº 1.274, de 25 de junho de 2008, trabalha para articular, com diversos segmentos da sociedade, a formação de uma rede de inovação em medicamentos da biodiversidade, tendo como recorte estrutural os seis biomas brasileiros: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Pantanal, Mata Atlântica e Pampa. Nesse sentido, foi criado o Escritório de Gestão em Redesfito (EGRF), a fim de organizar a interlocução entre os atores destes biomas. Cada polo instituiu um grupo gestor local, que faz o monitoramento das ações nos seus territórios em apoio ao EGRF. Este, por sua vez, realiza a gestão global das redes a serem formadas para sistematizar as informações necessárias à manutenção da comunicação entre os biomas.

Fonte: Jornal da Ciência
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