segunda-feira, 20 de maio de 2013

3 anos depois do incêndio, coleção de cobras e aranhas do Butantan continua ‘sem casa’



Três anos após o incêndio que destruiu o prédio das coleções biológicas do Instituto Butantan, os milhares de exemplares de cobras e aranhas que foram resgatados das chamas permanecem acondicionados em ambientes provisórios e, em alguns casos, inadequados, tanto para a preservação do acervo quanto para o trabalho dos pesquisadores que perderam seus laboratórios.

Um novo prédio, projetado especificamente para receber as coleções, já está pronto, mas ainda não foi inaugurado. Enquanto isso, os pesquisadores da Herpetologia (a ciência que estuda répteis) continuam a trabalhar em uma casinha antiga, próxima ao prédio da diretoria do instituto, em condições precárias.

Por falta de espaço, uma parte da coleção que foi resgatada do incêndio fica amontoada do lado de fora da casa, numa varanda coberta (garagem), porém exposta ao sol, à chuva e à sujeira. Outra parte está guardada no canto de um porão úmido e cheio de fungos nas paredes, junto com os cerca de 6 mil animais que foram recebidos pelo instituto e adicionados à coleção nos últimos três anos, desde o incêndio. As prateleiras estão lotadas.

“Nossas condições de alojamento são bastante precárias”, disse ao Estado o Biólogo Francisco Franco, curador da coleção de répteis. Tanto que, até hoje, não foi feita uma triagem para saber o que de fato foi perdido e o que foi salvo no incêndio. “Assim que tivermos um espaço adequado vamos fazer esse levantamento bem detalhado”, promete ele.

Sua estimativa é que cerca de 80% da coleção de cobras foi perdida. O acervo era um dos maiores do mundo, com cerca de 85 mil exemplares de centenas de espécies coletadas ao longo dos 120 anos do instituto.

A maior parte do que foi salvo do incêndio está num outro prédio, conhecido como “fazendinha”. O diretor substituto do Butantan, Marcelo De Franco, reconheceu que as condições não são ideais, mas disse que elas atendem às necessidades básicas de segurança para manutenção provisória do acervo.

O prédio novo, segundo ele, “já está pronto”. “Queremos entrar lá em julho, no mais tardar”, disse ele. O projeto é da Secretaria de Estado da Saúde, pasta do governo estadual à qual o Butantan é vinculado.

Segundo o diretor da Divisão de Engenharia e Arquitetura do instituto, Mauricio Meros, o projeto já foi aprovado pelo Corpo de Bombeiros, faltando apenas realizar o treinamento dos brigadistas que trabalharão no prédio e alguns testes de comissionamento dos sistemas anti-incêndio.

Franco, o curador, está ansioso para ocupar o prédio, que é maior e muito mais moderno do que o anterior – que era, essencialmente, um galpão improvisado. “Finalmente teremos instalações adequadas para nossas coleções”, disse. “Infelizmente demorou um pouco mais do que a gente esperava. Prometeram entregar o prédio em um ano; já passaram três.”

Segundo De Franco, o diretor substituto, o atraso foi “por conta da licitação da parte de segurança” do prédio, que terá sistemas sofisticados de prevenção e combate a incêndios  – o que não existia nas instalações anteriores, nem dentro nem fora do prédio.

Segundo informações da Secretaria de Saúde o prédio tem 1,6 mil metros quadrados, com dois andares, e custou R$ 5,5 milhões, incluindo os equipamentos e sistemas de segurança. A área onde ficarão as coleções é totalmente isolada dos outros ambientes, e o acervo ficará dividido em sete salas também isoladas umas das outras, para evitar uma perda total em caso de acidente. Cinco salas, de 50 m², abrigarão as coleções de herpetologia e artrópodes (aranhas e escorpiões); outras duas, de 20 m², abrigarão coleções de insetos e banco de tecidos.

“É um prédio muito bem pensado, tanto pelos engenheiros quanto pelos curadores”, elogiou Franco.

Para entender

As coleções de Zoologia são como bibliotecas biológicas, que os cientistas usam como referência para registrar e estudar a biodiversidade. Os animais coletados são injetados com formol e preservados em vidros com álcool, que precisa ser reposto periodicamente por causa da evaporação. Tipicamente, são preservados vários exemplares de cada espécie, para representar todas as variações morfológicas que podem existir dentro delas (imagine, por exemplo, fazer uma amostragem da espécie humana: um único indivíduo não seria representativo de todas as variações fenotípicas que existem entre os Homo sapiens; seria necessário coletar indivíduos de várias cores, alturas, idades, regiões, etc).

Fonte: Blog Imagine Só!
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