segunda-feira, 15 de abril de 2013

Implante de chips em peixes é usado para testar canal



Um grupo de cientistas ligados à usina hidrelétrica de Santo Antônio testará, até o fim deste mês, o funcionamento do sistema de transposição de peixes no Rio Madeira, em Rondônia, por meio de chips implantados em 370 bagres de dez espécies. Com antenas à beira do rio que captam sinais de GPS, será possível avaliar se a construção da hidrelétrica afetou o ciclo reprodutivo da icitiofauna local.

É a primeira vez que a metodologia, usada de forma experimental em laboratório, é aplicada em escala tão ampla no País. Os chips são feitos de resina cirúrgica e, de acordo com os responsáveis, têm se mostrado facilmente adaptáveis nos peixes amazônicos.

"Normalmente os peixes passam duas semanas se recuperando no pós-operatório, nadando no mesmo lugar. Aqui tivemos alguns que três horas após o implante já haviam se deslocado quase 15 quilômetros", conta o Biólogo Alexandre Marçal, responsável pelo monitoramento.

Até o momento, 290 bagres já foram marcados e outros 80 receberão o chip nas próximas semanas. Para fazer o implante do sensor, que tem o tamanho de uma pilha, é feito um pequeno corte na barriga do peixe e deixa-se um fio de náilon para fora, que servirá como antena.

Produzido com o mesmo material usado em marca-passos, tem uma bateria com vida útil de até sete anos. "O chip não atrapalha em nada a movimentação e, caso seja rejeitado pelo organismo, é expelido de forma natural", diz Marçal.

Num raio de 10 quilômetros do local da usina, o chip envia sinais de GPS para 14 antenas instaladas ao longo do rio. A movimentação dos peixes é avaliada antes, durante e depois da passagem pelo canal artificial de transposição da usina, que tem 900 metros de extensão. Os dados são analisado mensalmente.

"Dessa forma é possível identificar, por exemplo, em qual parte do dia eles se agregam ou se alimentam. São respostas precisas que mostram como a interação com as turbinas afeta o comportamento", diz Marçal.

"Nos chamou a atenção a capacidade de natação deles, mesmo em áreas de alta velocidade de água." O bagre foi escolhido pela capacidade migratória (alguns percorrem até 3 mil quilômetros até os Andes) e o fato de ser consumido pelos ribeirinhos.

Ajuda. Em áreas fora do alcance das antenas, os pesquisadores contam com dados de localização fornecidos por pescadores - ao capturarem bagres marcados, eles ligam para o telefone de contato anotado no chip, que não impede o consumo do peixe.

"Passados três meses, o sistema de transposição dá sinais de que está funcionando", diz Marçal. "Em Itaipu, um dos pioneiros, demorou até quatro anos para que o canal se consolidasse."

O monitoramento dos peixes no Rio Madeira é feito desde 2009, com acompanhamento do Laboratório de Ictiofauna e Pesca da Universidade Federal de Rondônia.

"Esses dados são comparados com os que tínhamos obtido por meio da análise de peixes capturados por pescadores", diz a bióloga Carolina Dória, que coordena o laboratório. "Os dados do chip mostraram, por exemplo, que algumas espécies vêm diversas vezes até a barragem e passeiam antes de subir o rio."

Em estudos de biodiversidade, o laboratório já catalogou 990 espécies de peixe no rio (78 delas inéditas) e espera chegar a 1 mil até o fim do ano.

Fonte: O Estado de S.Paulo
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