quinta-feira, 4 de abril de 2013

Exploração de Petróleo na Foz do Amazonas



Por Rachel Ann Hauser Davis, Bióloga, Doutora em Química Analítica pela PUC-Rio e professora e pesquisadora da UNICAMP. 

Recentemente, a Bacia da Foz do Amazonas se tornou uma das áreas mais desejadas das empresas internacionais interessadas na exploração de petróleo, por conta da descoberta, no litoral da vizinha Guiana Francesa, em 2011, de grandes reservatórios exploráveis de petróleo. Antes de entrar no mérito dos possíveis – ou melhor, certos – impactos ambientais nesta área, decorrentes deste tipo de atividade, devemos analisar um pouco a região por um prisma geográfico e biológico.

A bacia amazônica abrange uma área de 7 milhões de km², compreendendo terras de vários países da América do Sul (Peru, Colômbia, Equador, Venezuela, Guiana, Bolívia e Brasil). É a maior bacia fluvial do mundo. De sua área total, cerca de 3,89 milhões de km² (45%) encontram-se no Brasil, abrangendo os estados do Acre, Amazonas, Roraima, Rondônia, Mato Grosso, Pará e Amapá. A floresta amazônica, incluindo sua bacia hidrográfica, é considerada patrimônio mundial pela UNESCO, e é a mais rica floresta tropical do mundo em termos de biodiversidade (mais de um terço de todas as espécies no mundo vivem nela). Lá se encontram uma das maiores concentrações de água doce e enormes extensões de terras ainda com cobertura florestal.

Em sua foz, o rio Amazonas se divide em dois braços: o braço norte é o mais largo e corresponde ao verdadeiro estuário; o braço sul é conhecido pelos nomes de rio Pará e baía de Marajó. No estuário, a floresta encontra-se parcialmente inundada, com seus períodos de enchentes e vazantes, os ecossistemas de várzea, manguezais e terra firme. É uma enorme área composta pelas embocaduras dos rios Amazonas e Tocantins, cuja biodiversidade apresenta altas taxas de fitoplâncton. É ainda a zona de contato da água doce com a água salgada, dinâmica importante para a vida no estuário, onde os recursos de água doce se alternam com os do mar. Mais além, estuários são regiões consideradas como berçários para a reprodução da biodiversidade aquática.

Agora que conhecemos mais acerca da bacia, pensando apenas nos impactos mais óbvios deste tipo de exploração, como atividades mecânicas de perfuração que causam erosão do solo, a liberação de material particulado tóxico, as possibilidades de vazamento de óleo e a geração de outros tipos de resíduos, contaminando os ecossistemas locais, estamos praticamente implorando para iniciar o processo de degradação de uma área frágil e extremamente importante em um cenário mundial.

Aliado a isso, ainda existe o fato da possível perda de vida humana devido ao interesse puramente econômico de explorar uma área onde as águas são extremamente revoltas. Há dois anos, por exemplo, uma sonda de perfuração a serviço da Petrobras foi arrastada pela correnteza presente na área. Nesse caso não houve vítimas, mas os riscos à integridade física da tripulação, dos equipamentos e da segurança ambiental levaram a companhia a abandonar o poço no último ano. O desastre só foi revelado pela Petrobras em setembro de 2012, na conferência Rio Oil & Gás, no Rio. Na época, o diretor de Exploração e Produção, José Formigli Filho, minimizou o episódio e informou que a sonda havia sofrido forte pressão da correnteza e apenas se inclinado, sem ter se soltado da ancoragem. Agora, imaginem essa situação com embarcações tripuladas, com a quantidade de trabalhadores necessários neste tipo de empreendimento.

Caros leitores, eu lhes pergunto com toda a seriedade do mundo: vale realmente a pena destruir um ecossistema deste tipo – um (ainda) refúgio ecológico; onde se sabe muito pouco acerca das espécies (animais e vegetais) presentes no local, que poderiam, por exemplo, nos fornecer a cura para muitas doenças; e que foi eleita, em 2011, como uma das sete novas maravilhas do mundo – em nome da exploração petrolífera? Faz sentido?
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