segunda-feira, 11 de março de 2013

Projeto recupera áreas da Serra do Cipó com espécies nativas



Recuperar áreas degradadas com espécies nativas de campos rupestres. A ideia parecia complicada, há uma década, quando o Biólogo Geraldo Wilson Fernandes iniciou o seu projeto na Serra do Cipó, em Minas Gerais, região considerada um dos conjuntos naturais mais exuberantes e ricos em diversidade do mundo. Diante do desafio, o biólogo e então coordenador do curso de pós-graduação na área de ecologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) decidiu utilizar todo o conhecimento acumulado sobre as espécies locais para resgatar parte da flora que estava sendo perdida. O resultado dos experimentos realizados foi a recuperação de 40 hectares de área.

Os campos rupestres são ecossistemas encontrados sobre os topos de serras e chapadas com afloramentos rochosos onde predominam ervas e arbustos. É uma vegetação muito comum no Cerrado brasileiro, onde se localiza a Serra do Cipó, integrante da Serra do Espinhaço, considerada região de transição entre os domínios desse bioma e da Mata Atlântica.

Na última contagem, realizada há cerca de dez anos, havia 2 mil espécies de plantas catalogadas. “É altíssima a diversidade não apenas de plantas, mas de vários grupos [como insetos e fungos]. Algumas são totalmente endêmicas [desenvolveram-se na região] ou estão presentes ali com uma grande parcela de seus indivíduos, como é o caso as canelas-de-ema e das sempre-vivas”, relata Fernandes.

As pesquisas do biólogo no local começaram, em 2001, quando ele passou a participar de discussões com integrantes da comunidade científica sobre a renovação de parâmetros da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) sobre restauração ambiental. O cenário preocupava o cientista, diante da extensão de áreas alteradas e do fato de que dois terços das plantas ameaçadas de extinção da flora mineira estavam na Serra do Espinhaço. Resultado de vários fatores, como atividade das mineradoras, crescimento desordenado, fragmentação, estradas mal planejadas e migração de espécies.

“Como a Serra do Espinhaço se caracteriza por um conjunto de montanhas, cada uma com uma flora diferente, qualquer distúrbio neste ambiente coloca em risco essas espécies”, ressalta o especialista. “Observamos a falta de um trabalho mais detalhado sobre essas espécies que vivem sob condições extremamente estressantes no alto de montanha, sobre técnicas e mudanças nos protocolos e na readequação delas”, conta.

Projeto

Na intenção de encontrar uma solução para salvar o ecossistema local, o conservacionista e ecólogo que, até então, se dedicava à entomologia (ciência que estuda os insetos) decidiu sair da “Torre de Marfim”, como costuma dizer, e partiu para o campo em busca de alternativas. “O projeto partiu do conhecimento sobre a germinação das espécies em laboratório e, quando identificamos que isso era possível, começamos a fazer o processo no ambiente natural”, conta o professor, que utilizou parte de uma área da qual era proprietário no local, que estava degradada, para fazer os experimentos.

Segundo ele, o trabalho consistiu em práticas básicas da biologia, como conhecer o ambiente, a melhor época para fazer germinar a semente, avaliar o tamanho da cova apropriada e, depois, manter as plantas em viveiros rústicos, até que pudessem ser transplantadas. A escolha das espécies certas foi um grande desafio.

O pesquisador contou com o apoio de cerca de 50 estudantes e de recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq/MCTI).

“Como resultado, hoje nós sabemos propagar pelo menos 60 espécies de campos rupestres do Cerrado, que podem ser usadas na restauração de ambientes adversos sem recorrer ao uso de espécies exóticas [estranhas ao ecossistema]”, comemora. “Temos uma fórmula que, inclusive, há dois anos, aplicamos pela primeira vez para restaurar áreas ao longo de rodovias, com sucesso.”

Desafios

Para Geraldo Wilson Fernandes, o resultado não elimina a necessidade de monitoramento, diante de ameaças como espécies invasoras agressivas, novos cortes da vegetação e incêndios. Agora começa a fase de ampliação dos estudos pela necessidade de novos avanços, inclusive na legislação e por meio de políticas públicas. No Cerrado, o processo de restauração se torna mais difícil em relação a biomas como a Mata Atlântica e a Floresta Amazônica, onde ocorrem mais chuvas. “Estamos falando de áreas estressadas pela falta de água e pelo solo ruim. Restaurar esse tipo de ambiente é complicado, mas nós mostramos que existe alternativa”, ressalta.

A expectativa é que a divulgação da experiência sirva de estímulo a outros pesquisadores para que os métodos possam ser amplificados e adequados às peculiaridades do bioma. “Nós temos espécies com alto potencial para serem utilizadas não só nesta região, mas no Brasil inteiro”, afirma o biólogo. Ele coordena hoje a Rede de Pesquisas para o Uso Sustentável e Conservação do Cerrado (Rede ComCerrado), criada no âmbito do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) em 2007 e oficializada por portaria em 2009, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente (MMA) e instituições de ensino e pesquisa.

Segundo o coordenador, cerca de 60% do Cerrado já possui características diferenciadas da vegetação original. Ao reconhecer a necessidade de áreas para plantio e para a agropecuária a fim de atender as demandas da crescente população, ele também alerta para a urgência em recuperar os locais prejudicados pelas pastagens.

“O que não podemos é restaurar os ambientes desse bioma tão importante, uma das savanas mais ricas do mundo, com espécies exóticas, como eucaliptos”, reforça. “O Cerrado não é só terra para agropecuária. Temos possibilidade de usar esse conhecimento para propagar aquelas espécies comercialmente relevantes e com potencial ornamental, buscando novas alternativas.”

Fonte: Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação
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