segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Pesquisadores alertam sobre implacável extinção do Rio São Francisco



Após 212 expedições para percorrer o Rio São Francisco - trajeto equivalente a dar oito voltas na Terra ou andar 344 mil quilômetros - , entre julho de 2008 e abril de 2012, pesquisadores mapearam a flora do entorno do Velho Chico enquanto ocorrem as obras de transposição de suas águas, que deverão trazer mudanças profundas em sua paisagem. Mais do que fazer relatórios exigidos pelos órgãos ambientais que licenciam a obra, o professor José Alves Siqueira, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em Petrolina, Pernambuco, reuniu cem especialistas e publicou alerta sobre a inexorável extinção do São Francisco.

No primeiro capítulo do livro "Flora das caatingas do Rio São Francisco: história natural e conservação", Siqueira mostra os elementos de fauna e da flora que já foram perdidos. "É como uma bicicleta sem corrente, como anda? E se ela estiver sem pneu? E se na roda estiver faltando um raio, e quando a quantidade de raios perdidos é tão grande que inviabiliza a bicicleta? Não sobrou nada no Rio São Francisco", desabafa o professor da Univasf.

Ao registrar o estado atual do Velho Chico, Siqueira estabelece pontos de comparação para uma nova pesquisa, a ser realizada no futuro, medindo os impactos dos usos do rio. Além do desvio das águas, há utilização intensa para abastecimento humano, agricultura, criação de animais, recreação, indústrias e outros. Desaguam no rio milhares de litros de esgoto sem qualquer tratamento.

Barramentos - sendo pelo menos cinco de grande porte em Três Marias, Sobradinho, Itaparica, Paulo Afonso e Xingó - criam reservatórios para usinas hidrelétricas. Elas produzem 15% da energia brasileira, mas têm grande impacto ambiental. Alteraram o fluxo de peixes do rio e a qualidade das águas, acabaram com lagoas temporárias e deixaram debaixo d'água cidades ou povoados inteiros, como Remanso, Casa Nova, Sento Sé, Pilão Arcado e Sobradinho.

Com o fim da piracema, uma vez que os peixes não conseguiam mais subir o rio para se reproduzir, o declínio do número de cardumes e da variedade de espécies foi intenso. Entre as mais afetadas, as chamadas espécies migradoras, estão curimatá-pacu, curimatá-pioa, dourado, matrinxã, piau-verdadeiro, pirá e surubim.

Conforme reportagem do portal O Globo, as barragens não foram as únicas culpadas pelo esgotamento de estoques pesqueiros do Velho Chico. Programas de incentivo da pesca que não levaram em consideração a capacidade de recuperação dos cardumes, aceleraram a derrocada da atividade. Espécies exóticas, introduzidas no rio com o objetivo de aumentar sua produtividade, entre elas o bagre-africano, a carpa e o tucunaré, se tornaram verdadeiras pragas, sem oferecer lucro aos pescadores.

A região do São Francisco, que já foi considerado um dos rios mais abundantes em relação a pescado no país, precisa lidar com a importação em larga escala de peixes, sobretudo os amazônicos, para suprir o que não consegue mais fornecer. Uma das espécies mais comercializadas na Praça do Peixe, a 700 metros do rio, é o cachara (surubim) do Maranhão ou do Pará. Nos restaurantes instalados nas margens do Rio São Francisco, o cardápio oferece tilápias cultivadas ou tambaquis importados da Argentina.

A mudança provocada pelo homem tanto nas águas do Velho Chico quanto na vegetação que o circunda foi drástica e rápida. Tendo como base documentos históricos disponíveis, entre eles ilustrações de expedições de naturalistas importantes, como as do alemão Carl Friedrich Philipp von Martius, é possível ver a exuberância do passado. Menos de dois séculos depois, segundo reportagem do Globo, restam apenas 4% da vegetação das margens do Rio São Francisco. Desprovidas de cobertura verde, elas sofrem mais com a erosão, que assoreia o rio em ritmo acelerado. Os solos apresentam altos índices de salinização e os açudes ficam com a água salobra. Aumentam as áreas de desertificação. O Velho Chico está praticamente inviável como hidrovia. Espécies foram extintas e ecossistemas estão profundamente alterados.

Diante de tamanho caos, os pesquisadores afirmam que são necessárias intervenções imediatas pra tentar mudar em escala regional o cenário de degradação do Rio São Francisco. Além disso, sobram críticas em relação às discussões que envolvem o novo Código Florestal. O organizador do livro sustenta que já há conhecimento científico sólido em relação à necessidade mínima de 30 metros de vegetação nas margens dos rios para a proteção da qualidade da água, estabilização de encostas e prevenção a enchentes.

Fonte: AMDA
Postar um comentário