segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Biólogos monitoram comportamento de botos no litoral de São Paulo



Para os biólogos do Projeto Boto-Cinza, os 200 botos que vivem no estuário de Cananéia (SP) são quase família. Há mais de dez anos, uma parte da equipe se dedica a fotografar periodicamente os animais, anotando marcas de arranhões e machucados na cartilagem da nadadeira que ajudem a identificar cada um dos cetáceos.

“Se eu passar mais de seis meses sem fotografar um animal, corro o risco de achar que é outro indivíduo por causa das novas marcas que ele adquiriu neste tempo”, disse Eric Medeiros, biólogo do projeto, que estuda a população e comportamento dos cetáceos e trabalha com educação ambiental. Este método não invasivo, chamado de não-invasivo porque não implica em interferir com a vida do animal, é usado em outras partes do mundo para estudos populacionais de zebras, tartarugas, botos e baleias.

A relação tão próxima faz com que preferidos sejam eleitos. “Eu sempre gostei da Zinha. Eu conheço desde pequenininha e ela foi uma daquelas que demorou para desmamar, quase dois anos. Hoje tem seis anos e já tem filhote”, disse Lisa Oliveira, coordenadora do projeto.

O boto-cinza ( Sotalia guianensis ) é quase um “golfinho brasileiro”, habita o litoral que vai de Santa Catarina até Honduras. Está próximo da costa e em áreas de estuários, baías e mangues, locais que sofrem diariamente com a ação do homem.

Embora tamanha proximidade com os humanos, não há dados gerais que contabilizem quantos botos-cinza existem no mundo, por causa da dificuldade que é contar animais aquáticos, principalmente aqueles que vivem em águas turvas de um estuário, como é o caso dos animais de Cananéia. 

Os botos estão no topo da cadeia alimentar. Comem peixes, camarões e lulas. “Ele controla todas as populações que estão abaixo dele. Se você tira um predador de topo de cadeia como o boto, acaba desregulando todo o ecossistema que ele estava inserido”, explica Lisa. Os pesquisadores afirmam que é difícil prever o que aconteceria caso eles desaparecessem de Cananéia, ou do litoral brasileiro. O mais provável é que o resto da cadeia alimentar sofreria uma explosão populacional, no primeiro momento, e depois desapareceriam com a falta de alimento para todos eles.

Riscos 

Algumas populações no Brasil estão muito debilitadas, como os cerca de 50 botos que vivem na Baía de Guanabara. “Eles apresentam machucados no corpo e aparentam estar debilitados por causa da poluição e contaminação de metais pesados na água”, explica a coordenadora de pesquisa do Projeto Boto-Cinza, Letícia Quito.

Mas o problema dos botos de Cananéia é outro. Uma das principais riscos está na captura acidental de redes pesqueiras. A pesca de arrasto ameaça não só os botos, mas tartarugas e animais que vivem próximo ao solo marinho. Outro problema são as chamadas redes fantasmas, esquecidas no mar por pescadores se tornam uma armadilha para os botos, que se enrolam nestas redes e acabam morrendo.

Ao contrário das tartarugas, raramente os botos ingerem plástico. “Eles são muito espertos e também tem uma visão excelente, enxergam bem dentro e fora d’água”, disse Daniel Esteban-Gómez, biólogo que analisa as carcaças dos botos.

Ele conta que no estômago de um animal encontra-se em média 5% do peso dele em alimento. “Eles comem a todo instante, cerca de 90% do tempo”, diz o argentino que estuda uma estrutura do ouvido interno do animal que é feita de cálcio e a partir de análises é possível identificar o tipo de alimentação que o animal teve ao longo da vida.

Os pescadores da região se aproveitam da comilança. A estratégia de pesca dos botos consiste em rodear ou encurralar os peixes. Sabendo disso, os pescadores constroem os chamados cercos-fixos, armadilhas de pesca feitas de taquaras. O boto usa o cerco-fixo para encurralar peixes e se alimentar. Porém, alguns acabam entrando na armadilha e cabe ao pescador apenas recolher os peixes de dentro da armadilha.

Barulho no mar

O som das embarcações também atordoa os animais e atrapalha a comunicação entre eles. A bióloga Maura Martins estuda a interação entre embarcações e o boto-cinza. Ela afirma que é aconselhado que os barcos fiquem no máximo 30 minutos próximos aos animais. A 500 metros é preciso diminuir a velocidade do barco e a 300 metros diminuir o ruído. A 50 metros o barco precisa estar em ponto morto, parado. “A partir deste estudo conseguimos criar uma lei municipal que limita a aproximação das embarcações. Já é um ótimo começo”, disse.

Mas nem tudo é perfeito. Durante a alta temporada, jet skis causam pânico nos animais. Em 2003, um turista perseguiu até a morte um boto. Quando a carcaça foi analisada pelos pesquisadores, descobriu-se que se tratava de uma fêmea e que ela estava prenhe.

Os pesquisadores do projeto decidiram começar um trabalho com educação ambiental na região. Atualmente existem o selo Amigo do Boto para barqueiros de escunas, divulgação na praia e o projeto Pequeno Pesquisador, onde 12 jovens entre 12 e 17 anos vão a campo e acompanham por um ano os estudos científicos realizados no projeto.

“O meu pai era um que não achava importante preservar. Para ele a riqueza estava nas fábricas, naquilo que produzia alguma coisa. Hoje ele vê isso completamente diferente”, conta Talita Emanoelle Quadros, de 16 anos, uma das jovens do projeto. 

Cananéia fica no litoral Sul do estado de São Paulo a 260 quilômetros da capital paulista. Barcos e escunas da região fazem o passeio até a ilha do Cardoso, onde é possível ver vários botos pelo percurso. 

Fonte: Último Segundo
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