sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Estudo mostra razões de as mulheres morrerem mais tarde do que os homens



Segundo o último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa média de vida dos homens no país, em 2010, era de quase 70 anos, enquanto esperava-se que as mulheres morressem somente pouco depois que completassem 77 anos. Nos países desenvolvidos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que elas vivem, em média, seis anos mais que eles. Esse padrão desigual se repete há muitos anos, levantando diversas teorias sobre a longevidade feminina. Desde os hábitos alimentares à prática de exercícios, muitos fatores foram apontados como causas dessa vantagem das mulheres. Pesquisadores australianos, no entanto, divulgaram uma pesquisa que aponta um motivo muito mais profundo: defeitos genéticos podem ser os responsáveis por roubar algum tempo de vida dos homens.

A hipótese surgiu a partir de um experimento com moscas. Cientistas da Monash University, na Austrália, analisaram a expectativa de sobrevivência de 15 mil desses insetos e compararam os resultados entre os dois gêneros. Enquanto os machos viviam por, no máximo, 55 dias, algumas fêmeas resistiam até o 66º dia. As moscas do sexo feminino também costumavam morrer em uma época mais similar umas às outras, em contraste com os padrões de vida masculino, que variavam muito de acordo com a linhagem de cada mosca.

Para entender por que elas viviam muito mais do que eles sob as mesmas condições, os pesquisadores fizeram uma busca detalhada em nível celular. Nas mitocôndrias (organelas responsáveis por produzir energia), eles encontraram um padrão entre as sequências genéticas e o tempo de vida dos insetos. As moscas que tinham determinadas mutações apresentaram uma tendência a viver menos, enquanto as que tinham outras sobreviviam por mais tempo. “Como moscas e humanos têm genes mitocondriais similares, esses resultados são provavelmente muito relevantes para humanos”, acredita Damian Dowling, um dos autores da pesquisa.

Essa relação levantou a suspeita de que esses genes seriam os responsáveis pelo envelhecimento precoce masculino. “Essa organela cria radicais livres no processo de produção de energia, que podem ser prejudiciais à célula. Provavelmente, essas mutações causam taxas maiores de radicais livres nos machos”, especula Dowling. Mas um mistério permanecia: por que as fêmeas com os mesmos defeitos genéticos continuavam a viver mais? De acordo com a teoria apresentada pelos australianos, apenas os machos são afetados por essas mutações mitocondriais.

Herança maldita

A vulnerabilidade masculina às alterações ocorre, segundo o pesquisador, devido a um processo chamado de “herança maldita”. Enquanto os genes de um descendente podem vir de ambos os pais, as mitocôndrias são sempre herdadas da mãe. “Os espermatozoides, para adquirirem maior mobilidade, abriram mão, ao longo da evolução, do citoplasma e, consequentemente, das mitocôndrias. Assim, a organela é transmitida de uma geração para a outra apenas pelas mães, criando uma linhagem materna”, esclarece Maria Raquel Carvalho, professora no Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (ICB/UFMG).

Dessa forma, uma mutação que passou despercebida, ou que até mesmo tenha causado resultados positivos no organismo da fêmea, pode ser transmitida para a prole masculina, que vai sofrer os efeitos envelhecedores dos defeitos genéticos. Esse processo permite que milhares de gerações acumulem uma série de mutações apesar do processo de seleção natural, porque elas não são prejudiciais justamente para o gênero que as transmite.

Como a mitocôndria tem um reparo de DNA muito menos eficiente para se proteger de mutações, essa organela acaba se tornando uma vítima fácil para genes nocivos. Essas mudanças no código podem afetar a produção de energia na mitocôndria, gerando radicais livres em excesso e induzindo danos em outras células. Alterações na organela também significam mudanças no metabolismo, o que afeta o funcionamento de todo o corpo.

Sem pânico

Mesmo diante de tais resultados, especialistas lembram: não há motivos para homens perderem o sono pensando no envelhecimento precoce. O processo que ocorre nas mitocôndrias é responsável por apenas uma pequena fração do tempo de vida que as mulheres costumam ter a mais do que eles. “A diferença que verificaram é muito leve, não seria significativa em humanos. Essas mutações são importantes, mas os fatores ambientais têm um papel tão importante quanto elementos metabólicos ou biológicos”, assegura Diego Bonatto, professor de ciências biológicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Para enganar o código genético apressadinho, a dica é cuidar do corpo e compensar o estresse oxidativo e a mudança de metabolismo com uma dieta balanceada e exercícios frequentes. A prática de atividades físicas, por exemplo, aumenta o número de mitocôndrias nas células e pode ser uma arma contra o envelhecimento precoce. Outros estudos também provam que manter o peso na faixa ideal aumenta a expectativa de vida e evita doenças que podem levar a uma morte precoce, como hipertensão, problemas cardíacos e até mesmo câncer.

E, enquanto uma mudança de hábitos causa efeitos na saúde em poucos meses, as mutações na mitocôndria levam muitos anos para afetarem o corpo. “Há muitas mitocôndrias numa célula, e muitas células por tecido. Mesmo que ocorram mutações em uma, há outras funcionando normalmente”, compara Bonatto. Como o efeito cumulativo não demonstra sinais durante a juventude, os homens têm tempo de sobra para tomar controle sobre o próprio corpo antes que os genes o façam.

Restrição alimentar não traz anos a mais

Estudo realizado com macacos Rhesus e publicado ontem na revista Nature indica que uma dieta desprovida de um terço das calorias consumidas habitualmente não garante necessariamente um aumento da expectativa de vida, como sugeriam alguns especialistas. Contudo, essa dieta permite que os macacos desfrutem de uma saúde melhor, com menos casos de problemas cardiovasculares, câncer e diabetes. As conclusões contradizem pesquisas realizadas em camundongos e ratos que estabeleceram uma relação entre restrição alimentar e longevidade. Para a nova análise, cientistas do Instituto Americano de Envelhecimento submeteram, durante mais de 20 anos, 121 macacos de pesos normais a restrições calóricas de 30% e compararam seu período de vida com um grupo de controle. Não foi observada nenhuma diferença notável referente à longevidade entre os dois conjuntos de cobaias.

Fonte: Jornal Estado de Minas
Postar um comentário