segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Estudo genético revela alta incidência de híbridos entre tartarugas da Bahia



Algo "promíscuo" está acontecendo entre as tartarugas-marinhas da Bahia. Ao melhor estilo carnavalesco, elas andam desatentas com uma das regras mais básicas de bom comportamento da biologia evolutiva: a de que só se deve procriar com membros da própria espécie.

É o que indica uma série de estudos genéticos, segundo os quais mais de 40% das tartarugas que desovam nas praias do Estado são híbridas - filhas de pais de pai e mãe de espécies diferentes. Pesquisadores ainda não sabem dizer quais são as causas nem as consequências disso para o futuro das populações locais de tartarugas. Mas sabem que, além de uma curiosidade, é algo que precisa ser levado em conta nas estratégias de conservação dessas espécies - todas elas ameaçadas de extinção.

Um primeiro estudo, publicado em 2006 na revista Conservation Genetics, revelou que 43% das tartarugas consideradas morfologicamente como Eretmochelys imbricata (tartaruga-de-pente) eram, na verdade, animais híbridos, com parte de seu DNA herdado de Caretta caretta (tartaruga-cabeçuda) ou Lepidochelys olivacea (tartaruga-oliva). Uma taxa muito acima de qualquer outra registrada no mundo.

Agora, um novo estudo, publicado na revista Molecular Ecology, amplia o número de tartarugas amostradas e detalha com muito mais profundidade a história desse carnaval genético.

Os pesquisadores investigaram o genoma de 387 tartarugas, com base em amostras de tecido coletadas de várias áreas de desova e alimentação ao longo da costa brasileira.

Os resultados revelam que a hibridização é um fenômeno localizado - restrito principalmente ao norte da Bahia e, em menor escala, ao sul de Sergipe - e relativamente recente. A maioria dos híbridos é de animais de primeira geração e, alguns, de segunda. O que significa que pelo menos uma parte da população de híbridos é "viável" do ponto de vista reprodutivo.

"Mostramos que há, no mínimo, duas gerações de híbridos. Não há como negar isso", diz o geneticista Fabrício Santos, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Considerando que o tempo que uma tartaruga-marinha leva para atingir a maturidade sexual é de no mínimo 20 anos, os cientistas estimam que a hibridização começou há 40 anos ou mais. E não para por aí.

"Agora, certamente, há tartarugas híbridas de terceira geração nadando por aí", diz a pesquisadora Sibelle Vilaça, que participou da pesquisa durante seu mestrado na UFMG.

Em um ninho, os pesquisadores chegaram a encontrar filhotes com DNA de três espécies - incluindo Chelonia mydas (tartaruga-verde), uma espécie que não desova no continente, apenas em ilhas, e talvez por isso apareça apenas pontualmente nas amostras. Ou seja: filhotes de um animal que já era híbrido e cruzou com uma terceira espécie, formando "híbridos triplos".

"Talvez as fêmeas híbridas sejam mais promíscuas que o normal", especula Santos. "Sem ter uma espécie definida, talvez elas percam a especificidade e acasalem com qualquer espécie."

"O híbrido tem menor fecundidade e viabilidade reprodutiva, mas não é necessariamente infértil", explica Luciano Soares, pesquisador associado ao Projeto Tamar. Um exemplo é o do burro, resultado do cruzamento entre um jumento e uma égua. A maioria é inviável, mas uma minoria consegue se reproduzir.

No caso das tartarugas, é como se 43% de uma população que se pensava ser de cavalos fosse, na verdade, composta de burros que se parecem com cavalos.

Causas. Constatada a hibridização, os pesquisadores querem agora saber o que a motivou. A principal hipótese é que os cruzamentos tenham sido induzidos pelo colapso das populações de tartarugas, pressionadas pela caça de animais adultos e pela coleta de ovos nas praias - práticas ainda comuns no litoral da Bahia até poucas décadas atrás.

"Com populações menores numa área grande, fica mais difícil um macho e uma fêmea da mesma espécie se encontrarem", diz Santos. Em outras palavras: na falta de um parceiro da mesma espécie, acasala-se com quem aparecer na frente mesmo.

Um ponto importante foi constatar que o Projeto Tamar não foi, sem querer, um dos responsáveis por induzir a hibridização. Quando o projeto foi criado na Bahia, em 1980, uma das estratégias para evitar a predação dos ninhos pelos habitantes locais era retirar os ovos das praias e levá-los para um centro de reprodução, para depois liberar os filhotes na natureza. Havia a suspeita de que isso poderia ter interferido no comportamento reprodutivo das tartarugas.

Como o projeto tem 32 anos e a hibridização começou há mais de 40, porém, essa possibilidade foi desconsiderada. Hoje, 70% dos ninhos monitorados pelo Tamar são mantidos intocados.

"Eu diria que esse é o maior resultado prático do Tamar", diz a coordenadora técnica nacional do projeto, Neca Marcovaldi. "Não fazemos fiscalização. O fato de os ninhos não serem mais mexidos é resultado da educação ambiental e da inclusão social. As tartarugas agora valem mais vivas que mortas, porque geram empregos e são motivo de orgulho para os habitantes locais. É um patrimônio deles."

Fonte: O Estado de S.Paulo
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