terça-feira, 19 de junho de 2012

A força da própolis verde



Composta da mistura de substâncias colhidas das árvores, do pólen e das secreções das próprias abelhas, a própolis é produzida por elas para proteção. "É um produto natural que os insetos usam na colmeia para se defender contra micro-organismos. E a gente fez dele exatamente o mesmo, ou seja, um medicamento para nos defendermos”, ensina a pesquisadora Esther Margarida Bastos. Bióloga, entomologista e especialista em abelhas, Esther tem nos produtos de abelha sua linha de pesquisa, desenvolvida no Laboratório de Serviços de Recursos Vegetais e Opoterápicos da Fundação Ezequiel Dias (Funed), em Belo Horizonte. “Opoterápicos são os produtos que vêm de animais", esclarece a pesquisadora.

Foi nesse laboratório e sob coordenação de Esther, ao lado de mais três pesquisadores, que foram desenvolvidos, a partir de diversos experimentos, dois produtos: um gel e um enxaguante bucal (antisséptico) à base de própolis, que já foram patenteados e estão prontos para serem oferecidos em larga escala. Os produtos naturais têm como objetivo atuar no combate de alguns males bucais, como a candidíase atrófica crônica. “A candidíase é a cândida mesmo (causada geralmente pelo fungo Candida albicans), que acomete, em geral, quem usa prótese total na boca, muitas vezes em consequência da má higienização. O paciente fica com a boca completamente cheia de cândida, com umas bolinhas brancas, muito similares às aftas. Então, a ideia é indicar o gel à base de própolis, que é muito eficaz, pois atua como antibiótico e tem a vantagem de ser um produto natural", explica Esther Bastos.

Atualmente, esses pacientes são tratados com um gel à base de miconazol, um antifúngico. Já o enxaguante bucal é indicado para quem vai realizar um implante dentário. Atualmente, antes do tratamento, os pacientes usam, durante 14 dias, um líquido à base de clorexidina. Em um teste comparativo, a equipe de Esther constatou que a eficácia do produto feito com própolis é a mesma, além de evitar os efeitos colaterais do produto usado atualmente. "A clorexidina amarela os dentes e o enxaguante não”, garante.

Além dos efeitos práticos, e já comprovadamente eficaz, a própolis tem, naturalmente, uma ação contra fungos. "Ela oferece atividade antitumoral e evita fungos. Cândida e cárie, por exemplo, são causadas por fungos”, ensina a bióloga. A pesquisa durou três anos e passou por duas etapas, sendo a primeira de experimentos em laboratório. "Fizemos vários testes para saber qual a concentração ideal de própolis de que precisávamos. O produto era recebido bruto, passava por formulações para diluição e, por fim, foi encontrada a concentração mínima necessária para introduzir no medicamento. No caso do gel, fizemos toda a diluição pensando no efeito sobre a cândida”, detalha a bióloga.

Passada a fase de testes, o produto chegou ao teste clínico. Nessa etapa, foram selecionados pacientes em clínicas odontológicas que fizeram a higienização com o gel da própolis em vez do miconazol. Efeito positivo comprovado empiricamente, assim como os testes com o enxaguante. As pesquisas foram realizadas em parceria com as faculdades de odontologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

MIL E UMA UTILIDADES Além de naturais e sem contraindicações, já elaborados, testados e aprovados, o gel e o enxaguante bucal criados pela equipe da Funed têm ainda outra vantagem: são mais baratos para serem produzidos em larga escala. Nesse caso, fica a pergunta: será que interessa à indústria esse tipo de produção? "Como é um produto natural, interessa. E nós temos o objetivo de produzi-los para o Sistema Único de Saúde (SUS), que atende a população com problemas bucais, de implantes e até mesmo os imunossuprimidos, que geralmente sofrem muito com a cândida na boca”, acrescenta Esther Bastos. 

Mais que isso, a solução pode ter ainda outras variações. "É uma fórmula para a boca, mas é possível mexer na concentração e transformá-la, por exemplo, em um creme vaginal”, diz a coordenadora da pesquisa. Mas, por enquanto, esse tipo de teste ainda não foi realizado. 

Própolis verde

Composta de resinas vegetais e óleos essenciais, cera de abelha e pólen, o que diferencia um tipo de própolis do outro é exatamente a origem botânica, além da espécie da abelha. A própolis verde vem do alecrim-do-campo. É dessa planta que saem as substâncias que a qualificam. Em Minas Gerais, 102 municípios produzem 20 toneladas do produto por ano, de acordo com a Cooperativa Nacional de Apicultura (Conap). O diferencial da própolis verde produzida em terras mineiras está na presença do artepelin-C, que ajuda a combater o câncer. Sem nada que afete sua reputação ao longo de milhares de anos, independentemente da origem botânica, a própolis sempre foi usada, em várias soluções de saúde, como gripes e dores de garganta, desde civilizações antigas. “Desde o Egito antigo”, reforça a pesquisadora Esther Bastos.

Notoriedade mundial

Os testes foram feitos, os produtos patenteados e a intenção dos pesquisadores é colocá-los à disposição do SUS. Mas, de forma prática, o que isso pode afetar nosso dia a dia? Para Esther Margarida Bastos é importante ressaltar que a própolis usada nessa composição desenvolvida na Funed é a verde, típica de Minas Gerais. A própolis verde, de acordo com a bióloga, foi muito estudada, tem notoriedade mundial, atividade biológica e potencialidades reconhecidas. Outra curiosidade é que, de acordo com o último resultado da Pesquisa Nacional de Saúde Bucal, do Ministério da Saúde, publicada em 2010, próteses dentais são muito demandadas nos serviços odontológicos, tanto os públicos quanto os privados.

Números

13% dos adolescentes avaliados necessitam de próteses parciais em um maxilar

69% é a porcentagem de adultos entrevistados que necessitam de algum tipo de prótese

41% dos casos entre adultos são relativos à prótese parcial em um maxilar

Fonte: Estado de Minas
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