segunda-feira, 14 de maio de 2012

Invasão de milhões de cobras venenosas ameaça fauna da ilha de Guam



A ilha de Guam, território americano no oeste do oceano Pacífico, foi invadida por uma espécie de cobra que, em apenas 60 anos, conseguiu se reproduzir e atingir uma população total de dois milhões. As cobras agora ameaçam a fauna local.

A cobra marrom de árvores tem cerca de um metro de comprimento, uma cor amarela intensa na parte de baixo e vive na densa floresta tropical que cobre a ilha.

O território americano no Pacífico tem apenas 50 quilômetros de comprimento e dez quilômetros de largura, mas abriga os 2 milhões de exemplares da espécie, considerada uma das mais bem-sucedidas espécies invasoras.

"Acreditamos que elas chegaram no final da Segunda Guerra Mundial. (...) Parece que elas vieram da ilha de Manus, na Papua Nova Guiné", afirmou o biólogo James Stanford, do US Geological Survey.

O biólogo explica que o equipamento usado pelos Estados Unidos na Papua Nova Guiné, durante as batalhas da Segunda Guerra Mundial na região do Pacífico, foram enviados para a ilha de Guam. Uma destas cobras provavelmente foi junto em um navio ou avião.

"E daquelas poucas, ou talvez até de apenas uma (fêmea) já fecundada, agora temos uma população em uma escala que é inacreditável", acrescentou.

REDE ELÉTRICA

O veneno destas cobras é fraco, mas, mesmo assim, elas causam muitos problemas.

As cobras conseguem chegar a todos os lugares e os moradores da ilha são acordados pelo movimento dos animais em suas camas.

O sistema de fornecimento de energia elétrica da ilha sofre regularmente com a invasão das cobras na rede de distribuição, causando blecautes que já foram apelidados de "cortes marrons", em referência ao nome da cobra.

Mas, o maior impacto é entre os outros animais nativos da ilha, que estão sendo dizimados.

Um exemplo é uma ave nativa de Guam, o koko. Atualmente, esta ave pode ser vista na ilha apenas em gaiolas, em um centro de reprodução da espécie.

"A cobra marrom de árvores teve um impacto devastador. Dez entre 12 espécies nativas de aves desapareceram em 30 anos", afirmou Cheryl Calaustro, do Departamento de Agricultura de Guam.

"As aves evoluíram sem predadores. Eram bem ingênuas. E, quando a cobra chegou a Guam, comeu ovos, filhotes e adultos. Gerações inteiras desapareceram", acrescentou.

No entanto, as cobras não pararam apenas nas aves.

"Nós pensamos que seria limitado. 'Ok, se acabar com as aves, (a população de cobras) vai cair'. Mas não foi este o caso, elas apenas trocaram de alimento - roedores, lagartos, pequenos mamíferos", explicou James Stanford.

ARMAS DIFERENTES

Os moradores estão enfrentando as cobras com armas diferentes. Uma das operações é lançar de helicópteros camundongos contaminados com veneno e equipados com paraquedas, que servirão de alimento para as cobras.

"No momento estamos usando o acetaminofeno (paracetamol). Geralmente é usado como analgésico e antitérmico em humanos, mas é 100% letal em todas as cobras marrons de árvores", disse Dan Vice, do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.

O governo americano está tentando acabar com as cobras e também tentando evitar que o problema se espalhe. Para isso, eles contam com a ajuda de pequenos cães da raça Jack Russel terrier.

Um deles é Elmo, que pode ser visto trabalhando com seu uniforme verde, farejando caixas em depósitos movimentados perto do aeroporto de Guam, procurando pelas cobras.

Se Elmo consegue captar algum cheiro diferente no depósito, ele alerta um dos inspetores do governo americano e ganha sua recompensa.

O cão trabalha com outros da mesma raça, um pequeno exército destes animais, todos farejando cada uma das cargas que vão sair da ilha.

"É um projeto monumental. Estamos trabalhando 24 horas por dia, sete dias por semana", disse Vice.

IMPACTO ECONÔMICO

Deixar que uma cobra embarque em um avião poderia ter consequências devastadoras.

"Pesquisadores em economia tentaram prever o impacto destas cobras no Havaí. Eles descobriram que poderia custar US$ 400 milhões ou mais se esta cobra se estabelecesse (no Havaí)", afirmou Dan Vice.

"Os impactos ocorrem em todas as áreas da economia. Incluindo o sistema de saúde, pois as cobras atacam as pessoas, os danos ao sistema de energia elétrica, a queda de rendimentos devido ao declínio do turismo e do ecoturismo."

O temor é que seja tarde demais para acabar com a infestação destas cobras, mas Vice afirma que isto não impedirá que os moradores tentem erradicar a espécie.

"Nosso objetivo no longo prazo é erradicar a cobra", disse.

"Os problemas aqui são tão profundos que não queremos que eles se espalhem para nenhum outro lugar, e a única forma de conseguir isto é erradicá-los completamente."

Fonte: Folha Online
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