quinta-feira, 22 de março de 2012

Sem Ciência não há política ambiental consistente



Por Gustavo Faleiros - Jornalista e Mestre em Política Ambiental pela Universidade de Londres

O trágico incêndio que destruiu 70% da Estação de Pesquisa na Antártica e vitimou dois militares brasileiros ainda está sendo investigado para que se conheçam as causas exatas. Mas ele trouxe à tona questões sobre a maneira errática com a qual os governantes (mal)tratam o investimento em Ciência no Brasil. Do jeito que vamos, comprometemos pesquisas sobre o clima e o desmatamento.

Logo após o desastre no Polo Sul, um dos mais respeitados cientistas do programa antártico, o geólogo Jefferson Simões, diretor do Centro Polar da Universidade Federal do Rio Grande do Sul resumiu o problema em uma reportagem do jornal O Estado de São Paulo. “O problema é que em um ano há orçamento de 10 milhões de reais e no outro, 5 milhões de reais”.  

Coincidência ou não, apenas alguns dias antes do incidente na Estação Comandante Ferraz, o Ministério da Fazenda havia anunciado um corte de 20% no orçamento do Ministério de Ciência e Tecnologia. Consultas ao orçamento mostram que, antes mesmo desde corte, o investimento no programa antártico em 2012 será o menor em 7 anos.

Um movimento totalmente contraditório às promessas de Dilma Rousseff durante a posse do novo ministro de Ciência e Tecnologia, Marco Antônio Raupp. Na ocasião, a presidente frisou que sem pesquisa e inovação não existe desenvolvimento. “O grande instrumento de construção do futuro deste país passa necessariamente por, no presente, nós ampliarmos as oportunidades e a qualidade da Educação e assegurarmos que o Brasil seja capaz de produzir Ciência, seja capaz de produzir Tecnologia e seja capaz de inovar”, disse Dilma.

De fato, basta olhar para os Estados Unidos, a Alemanha, o Japão, para se constatar que se o Brasil quer ter relevância no cenário mundial deve investir em Ciência.  Mas influência e crescimento econômico não devem ser os únicos objetivos: a inconsistência nas políticas científicas ao longo dos anos contribui claramente para a piora das políticas ambientais. Um exemplo é o orçamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). 

Em 2009 pesquisadores do INPE já haviam reclamado que o contingenciamento de verbas colocava sob risco o programa de construção de satélites em parceria com a China - o CBERS. O satélite CBERS 3 está atrasado em dois anos de seu cronograma original. Com a falha do satélite americano Landsat 7 e o término do incrível Landsat 5 (durou 27 anos), do CBERS 2B e do japonês Alos, o Brasil gastará pela primeira vez em muitos anos dinheiro com a compra de imagens de satélite para fazer o monitoramento da Amazônia. Serão 6 milhões de reais que vão financiar a obtenção de imagens da constelação de satélites britânicos DMC.

Não surpreende neste cenário que o físico Gilberto Câmara tenha pedido as contas de seu cargo de diretor-geral do INPE. Em entrevista a ((o))eco ele disse que deixa o cargo “frustrado”. Sua principal crítica ao anunciar o pedido de demissão é que novos pesquisadores não estão sendo contratados e o quadro do INPE em breve não será suficiente para lidar com as necessidades do Brasil tanto em inovação como em observação do uso de recursos naturais.

No país que se comprometeu diante do mundo a proteger suas florestas, reduzindo o desmatamento na Amazônia em 80% até 2020, investir em Ciência é essencial. São organizações como a SBPC e a ABC, por exemplo, que tentam impedir que, com a reforma do Código Florestal, o Congresso dê carta branca para que se queimem mais florestas. As mesmas queimadas cujas emissões de carbono contribuem para o aquecimento global e, portanto, para o derretimento das calotas polares. Algo que os cientistas brasileiros investigavam com a ajuda dos laboratórios da finada estação Comandante Ferraz. Os pesquisadores já parecem ter ligado as pontas, mas os nossos governantes, infelizmente, não.

Fonte: O Eco
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