quinta-feira, 29 de março de 2012

LATA D´AGUA NA CABEÇA



Por Aline Moura - Bióloga/ especialista em Meio Ambiente

Quem não se lembra dessa pérola do sambista Candeias Júnior. “Lá vai Maria sobe o morro e não se cansa...” A música que sabiamente flagra a saga de uma lavadeira em busca de água e de uma vida melhor para os filhos ainda é o retrato do cotidiano de várias Marias pelo país afora. Nos estados do norte e do nordeste, principalmente, a falta de acesso a rede de abastecimento de água sacrifica milhares de famílias, condenando-as a viver precariamente e em condições subnormais, obrigando as pobres Marias a percorrer grandes distâncias para encontrar  uma fonte de água barrenta , de péssima qualidade que é utilizada tanto   para servir aos filhos  como para realizar as atividades domésticas.

O valor da água somente é dado por quem enfrenta dificuldades para conseguí-la, como é o caso das Marias do sambista. Para os personagens do enredo, o significado do líquido vai bem além da junção de duas moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio. Cada caneca é utilizada com sapiência e cada gota vale peso de ouro. 

Situação contrastante com a que vivemos no lado “nobre” do mapa, esbanjando o pouco que ainda temos e poluindo o restante. O uso é irracional, abusivo e até vergonhoso quando nos deparamos com cenas de seca, doenças e mortes provocadas pela falta de água ao redor do planeta.

Usufruímos da água sem o menor critério e necessidade. Em algumas cidades as perdas por vazamento em tubulações chegam a 40% e os desperdícios continuam nos lares, empresas e comércios afora. Uma torneira pingando por dia, por exemplo, consome cerca de 46 litros de água, uma descarga de 15 a 30 litros e a lavagem de um automóvel 100 litros.

Se formos direto à fonte, a situação é ainda mais preocupante: as cabeceiras dos rios – fonte de abastecimento – estão perdendo espaço para a urbanização acelerada das cidades.  Na microbacia do rio São João, quase 80% das nascentes sofreram impactos nos últimos anos de acordo com dados do diagnóstico do Projeto São João Vivo. O impacto  representa não só  a  perda na qualidade da água mas sua  migração para outros pontos, sacrificando os tributários do rio principal,que deixa então de receber parte do volume de água.Um proprietário de um terreno rural que não resguarda sua nascente da ação do gado por exemplo, provavelmente perderá  para  outros terrenos a vazão outrora abundante.

Se temos alguma coisa para comemorar no Dia Mundial da Água, 22 de março é pela existência do ciclo hidrológico, onde á água passa por fases até culminar nas chuvas que abastecem o lençol freático e os rios, ou seja a água estará sempre movimentando em ciclos, mas a notícia ruim é que todo esse volume perde gradativamente a qualidade, podendo tornar-se em muitos casos, inviável o tratamento. Aí então poderemos virar todos Marias com a lata d’ água na cabeça.
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