terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Uma arma química pequena e peludinha



O que é preto e branco, lembra muito um gambá, 
E com cascas de árvore pode até leões derrubar? 

Conheça o rato cristado africano, também conhecido como Lophiomys imhausi, uma criatura tão felpuda e bem protegida que nem parece fazer parte do rol internacional de ratos. No entanto, ele é de fato um rato, um rato sujo e mortal, com uma pele superespecializada, banhada com toxinas potentes provenientes de árvores.

Como um relatório recente publicado no periódico Proceedings of the Royal Society B deixa claro, o rato cristado apresenta um dos casos mais extremos de uma estratégia de sobrevivência rara entre os mamíferos: a dissuasão dos predadores com armas químicas.

Os venenos e repelentes não são raros na natureza: muitos insetos, sapos, cobras, águas-vivas e outros animais usam-nos sem parcimônia. Mas os mamíferos geralmente recorrem, como dispositivos de defesa ou ataque, a dentes, garras, músculos, sentidos aguçados e raciocínio rápido.

Mas, de vez em quando, no entanto, uma linhagem de mamíferos descobre as maravilhas da química. Gambás e zorrilhos imitam o mau cheiro sulfuroso e anóxico de um pântano. O ornitorrinco macho infunde um veneno que lembra o da cobra nas esporas de seu calcanhar. O ouriço declara: não sacou qual é a dos meus espinhos? Permita-me afiar as extremidades com veneno que acabo de morder das costas de um sapo Bufo.

Outros mamíferos se preparam quimicamente contra inimigos menores: os macacos capuchinhos afastam os mosquitos e carrapatos com substâncias extraídas de centopeias e formigas, enquanto o veado-de-cauda-preta se besunta à vontade com as potentes secreções antimicrobianas produzidas pelas glândulas que ficam em seus cascos.

De acordo com William Wood, professor de química da Universidade Estadual Humboldt, na Califórnia, essas secreções têm demonstrado eficácia contra uma vasta série de microrganismos, incluindo as bactérias da acne e os fungos que causam pé-de-atleta, o que poderia explicar por que os jovens veados são especialmente dedicados à rotina de esfregar o casco antes de ir paquerar.

A cada ocorrência recém-identificada de um método químico desse tipo, os pesquisadores buscam identificar as suas vantagens, desvantagens e história evolutiva, e compará-la com outros casos conhecidos de armas químicas. Daí surgiram diferentes tipos de pesquisa.

Por exemplo, enquanto os insetos venenosos tendem a propagandear sua impalatabilidade em cores vivas como vermelho, laranja e amarelo -- as melhores para alertar seus predadores principais, os pássaros diurnos, de olhos atentos -- a maioria dos mamíferos e seus predadores mamíferos são noturnos ou crepusculares, alvorecentes e sombrios. A cor se perde neles, mas o forte contraste entre as trevas e a luz não.

É por isso que os gambás, os zorrilhos (também conhecidos como polecats) e os ratos cristados africanos desenvolveram de forma independente um tipo de pelugem semelhante, que combina o preto contra o branco. Sob luz muito baixa, é um padrão inconfundível, que passa uma mensagem clara: você me viu. Eu sou nocivo. Agora saia daqui.

Toda a estratégia do rato

Em seu artigo de título encantador "Uma surpresa venenosa sob as vestes do rato crispado africano" , Jonathan Kingdon e Fritz Vollrath, da Universidade Oxford, e seus colegas descreveram o complexo de traços que dá origem à podridão dos ratos.

Os pesquisadores descobriram que o rato gasta muitas horas roendo o tronco e as raízes da árvore Acokanthera, da qual se extrai a mesma toxina do tipo curare que ataca o coração e que os caçadores africanos usam tradicionalmente para matar elefantes. O rato então espalha a substância tóxica que mastigou em pelos especializados que se estendem pelo seu flanco.

Esses pelos, quando observados sob um microscópio eletrônico de varredura, parecem muito diferentes de pelos comuns de animal, afirmou Vollrath. Cada haste externa é dura e cheia de buracos -- como um cacto morto -- e no interior dela há uma série de microfibras longas e macias. Os pesquisadores mostraram que as infiltrações de toxina aplicadas através dos orifícios exteriores dos pelos são absorvidas e armazenadas pelas fibras, dando aos ratos o poder de infligir a desgraça com seus pelos.

Basta uma pequena alfinetada para levar um predador a adoecer ou mesmo para matá-lo, e o rato cristado está bem equipado para aguentar algumas mordidas, disse Vollrath: A sua pele têm uma espessura extraordinária e a sua cabeça é bem protegida como a de uma tartaruga. Seja por conta de experiências prévias ou por seguirem o bom exemplo de animais mais velhos, os muitos carnívoros da África costumam ficar longe do rato.

Assim como os pesquisadores que estudam a espécie Lophiomys. "O Jonathan é um pesquisador cheio de iniciativa e normalmente come todos os animais que estuda", disse Vollrath a respeito de seu colega. "Mas ele admitiu que prefere não comer este."

Os pesquisadores ainda não sabem por que o rato é imune à toxina ou como o seu destino se encontrou com o da árvore Acokanthera. Vollrath procura as razões disso na natureza básica do rato.

"O rato come um monte de coisas que os outros animais não comem", disse ele. "Se ele come algo nojento, tenta cuspi-lo ou limpá-lo, usando a pele como um guardanapo."

Se um rato cristado precedente, ao experimentar uma árvore tóxica e regurgitar frente a ela, acabou ficando protegido acidentalmente contra o envenenamento, bem, a evolução tem uma maneira de transformar contingências em necessidades. O rato cristado agora é anatomicamente e comportamentalmente dependente da toxina da árvore para se proteger, e caso a Acokanthera fosse extinta, seu pequenino escultor também desapareceria pouco tempo depois.

Arrogância do gambá

Ao contrário do rato cristado, os gambás produzem suas toxinas do zero, mas também levaram os mecanismos químicos de defesa a um extremo altamente específico, quase rebuscado. Os gambás são únicos entre os mamíferos, apesar de já terem sido considerados uma espécie de fuinha. As cerca de 10 espécies do animal que existem no mundo receberam recentemente uma designação própria, a família Mephitidae, termo que vem da expressão latina para "mau cheiro".

Por meio de glândulas odoríferas anais que ficam logo na entrada do reto, na base da cauda, os gambás geram uma versão extrema do conhecido líquido com que os carnívoros marcam seu território, acentuando de modo ousado os componentes químicos que nós e outros mamíferos julgamos serem sinal de mau agouro.

O ingrediente básico do líquido exalado pelo gambá é o tiol, a marca de ambientes desagradáveis que têm forte presença de sulfeto de hidrogênio letal e são pobres em oxigênio -- lugares como minas, pântanos e poços de petróleo e gás. "Nosso nariz é capaz de detectar tióis em níveis extremamente baixos, em partes por bilhão", disse Wood. "Precisamos ficar longe de áreas com escassez de oxigênio, onde corremos risco de vida."

Os gambás, acrescentou, "souberam tirar proveito disso".

Tiraram proveito e se deram bem. As glândulas axilares do gambá evoluíram até se tornarem estruturas parecidas com mamilos inchados, capazes de se articularem de forma independente uma da outra, a fim de obterem uma mira perfeita e um efeito perfeitamente calibrado.
Para deter um predador que esteja correndo atrás dele a uma distância desconhecida, o gambá recorre a um efeito de nevoeiro pulverizado; se souber a que distância o agressor está, o gambá tem a opção de disparar o líquido direto no rosto do animal.

Os gambás confiam na sua habilidade repelente, mas hoje em dia a sua arrogância pode ser fatal. Os pesquisadores sugerem que uma razão pela qual os gambás sofrem tantos atropelamentos é por pensarem que os carros são outro predador que precisa aprender uma lição: pode vir, meu chapa, vou ficar aqui e soltar uma borrifada.

Saber se defender bem significa não se injuriar nunca. Os pesquisadores ficaram impressionados com o ímpeto com que os macacos procuram por novas formas de repelente de insetos, e com sua disposição para suportar substâncias químicas extremamente irritantes para que elas repilam as sanguessugas que os afligem.

"Os macacos-prego chamam atenção por fazerem essa pesquisa de modo generalista e destrutivo", disse Jessica Lynch Alfaro, diretora-associada do Instituto de Sociedade e Genética da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. "Eles abrem tudo o que veem pela frente e você tem que tomar cuidado, ou eles jogam galhos na sua cabeça."

De vez em quando, eles se deparam com uma substância que parece promissora e começam a se besuntar com ela. Eles partem a pimenta malagueta para liberar capsaicina e despedaçam centopeias para conseguirem algumas gotas ardentes de benzoquinona.

Para eles, encontrar um ninho de formigas de carpinteiro é tirar a sorte grande! Os macacos se jogam por cima do formigueiro e rolam em todas as direções, a fim de absorver o suprimento formidável de ácido fórmico das formigas.

É claro que tais tratamentos são dolorosos. "Os macacos capuchinhos ficam muito agitados quando estão se besuntando", disse Lynch Alfaro, que publicou recentemente um artigo no periódico The American Journal of Primatology sobre esse comportamento dos animais. "Mas essa é uma maneira de afastar os parasitas, e os macacos parecem ter uma ótima resistência à dor".

Fora isso, nem tudo é dor e sofrimento. A hora de se besuntar também é um momento importante de socialização, e quando um macaco começa a se esfregar, logo atrai os outros.

"Eles entram em tal frenesi que a ordem social se rompe; todos começam a besuntar uns aos outros", disse Lynch Alfaro. "É uma espécie de festa grande e selvagem". Eles podem até estar machucados, mas a poção mágica fica espalhada por toda parte.

Fonte: The New York Times
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