quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Traição entre bichos fica comum quando há dificuldades ou tentação pelo poder


Chimpanzés observambola em parque da Alemanha: machos da espécie costumam cultivar amizades duradouras, mas podem virar inimigos

Quem vê de fora jura que são o casal perfeito. O papai pássaro trabalha arduamente para trazer alimento para a família, enquanto a mãe protege e aquece os filhos no ninho. Eles são dedicados só um ao outro e a parceria pode durar uma vida inteira. Mas, assim como acontece com muitos seres humanos, as aparências caem por terra quando surge o famigerado teste de DNA. Pois é: nem mesmo os pássaros, famosos por sua monogamia, escaparam na malha fina da fidelidade. Cientistas acabam de descobrir que eles também pulam a cerca — e, quanto maior a adversidade, mais frequência terão essas “escapadinhas” extraconjugais. Para ter uma ideia, do ninho de que cuida um macho como o do exemplo acima, pelo menos 10% dos ovos não são seus.

Há muito tempo a ciência tem olhado para o comportamento animal em busca de similaridades com os seres humanos. Nos últimos anos, as descobertas desse ramo têm sido as mais surpreendentes. Já se sabe que alguns animais, como os papagaios, são capazes de viver em monogamia, seguindo até mesmo o preceito do “até que a morte os separe”. Observou-se também que outros, como alguns mamíferos, desenvolvem amizades duradouras, que, algumas vezes, ultrapassam até mesmo as fronteiras do além, se transformando em luto. Mais que isso, agora a ciência parece entender que amor e amizade são facas de dois gumes. Onde eles existirem, existirá, também, a possibilidade de traição.

Essa hipótese guiou os trabalhos do ecologista evolutivo Carlos Botero, da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Botero e sua equipe revisaram mais de 200 anos de estudos sobre o comportamento sexual dos pássaros. Observações mostraram que a monogamia é prática comum de 80% a 90% dessas espécies. Por essa razão, no início, os biólogos apostavam na fidelidade das aves. “Tudo isso mudou quando as pesquisas genéticas se tornaram possíveis. Depois disso, revelou-se que, em alguns casos, até 100% dos filhos criados pelo pai social não eram seus”, conta Botero.

O ecologista se perguntou, então, se o aquecimento global não estaria influenciando a lealdade conjugal das aves. Nesta semana, ele partilhou suas conclusões em um artigo publicado na revista científica PloS One. E, sim, em tempos de incerteza, os pássaros são menos fiéis. “Quanto mais imprevisível o clima, maiores serão as taxas de divórcio e traição. Isso acontece porque, em tempos de mudanças, quanto maior for a variedade genética da prole, mais chances haverá de ao menos um entre eles sobreviver”, explica Botero. O raciocínio é o seguinte: quando o sol está raiando e as frutas são macias, pode parecer uma grande vantagem escolher como pai de seus filhos um pássaro de bico macio e penagem verde gritante. Contudo, quando o clima começa a esfriar, as folhas despencam das árvores e as sementes se tornam duras, o parceiro ideal pode ser uma ave marrom de bico longo e duro. E se o pássaro não souber que condições esperar da próxima temporada? Melhor cruzar com os dois, só para garantir.

Amigos da onça O ecologista evolutivo John Mitani dedicou 33 anos a estudar os parentes mais próximos dos humanos, os macacos. Toda essa temporada de observações o deixou convicto de que os chimpanzés sabem ser amigos. Os chimpanzés machos, ressalte-se. “As fêmeas costumam competir muito por alimento para si e suas crias e são, por isso, mais solitárias. Os machos desenvolvem entre si laços profundos que chegam a durar a vida toda”, revela Mitani. Quando o ecologista fala de amizade, ele não está se referindo apenas à companhia. Hare e Ellington — dois chimpanzés do Parque Nacional Kibale, de Uganda, observados por ele ao longo de anos — cooperavam um com o outro em diversos aspectos, como partilhar comida e intervir em brigas, por exemplo. Quando Ellington morreu, Hare se isolou do resto do grupo e ficou apagado por um longo período, atitude que, para Mitani, se assemelhou ao luto humano.

Como os chimpanzés, os cientistas já identificaram amizades em diversas outras espécies. Entre elas estão os golfinhos, as hienas, os cavalos, os elefantes e os babuínos. Mas houve, então, uma descoberta estarrecedora. Os animais também podem ser “amigos da onça”. “Entre chimpanzés, pelo menos, o amigo de hoje pode ser o inimigo de amanhã”, revela Mitani. E as maiores causas dessas traições são ainda mais curiosas (sem contar assustadoramente parecidas com a natureza humana): o poder e o sexo.

Na década de 1980, os chimpanzés machos Kasonta, Kamemanfu e Sobongo vivenciaram um enredo recheado de jogos de poder e traição nas montanhas do Parque Nacional de Mahale, na Tanzânia. Por anos, Kasonta manteve a liderança de seu grupo com o suporte de seu parceiro Kamemanfu. Certo dia, no entanto, a lealdade do amigo começou a vacilar. Kasonta e Sobongo passaram a disputar a aliança de Kamemanfu por um longo período, oferecendo a ele regalias em comida e cedendo parceiras sexuais. Algum tempo depois, Kamemanfu se uniu a Sobongo em um golpe que derrubou o antigo aliado.

Retaliação

Às vezes, também como os homens, os animais descobrem a traição. No caso dos pássaros, não há muita certeza acerca da paternidade, mas as pistas da deslealdade da parceira são várias. Há no ninho mais ovos do que o macho poderia produzir; ou ele percebe que a fêmea se ausentou por longos períodos durante seu período fértil — tempo provavelmente dedicado a seus amantes de outras comunidades.

A reação? 

O macho negligencia a família. Não se atreve a sacrificar a prole do outro, devido ao risco de, no caminho, acabar matando seus próprios descendentes por engano. Então, resolve ser um pai pior para todos. Entrega menos comida, comparece ao ninho com menos frequência. Mas a parceria prossegue, e os filhotes crescem, apesar dos pesares. Ao que tudo indica, em alguns aspectos, a evolução não deixou pássaros e homens tão distantes assim, afinal.

Fonte: Jornal Estado de Minas
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