sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Planta é ressuscitada depois de 30 mil anos



O mundo era habitado por mamutes e tigres-dente-de-sabre quando o fruto da pequena flor branca Silene stenophylla foi preso ao gelo da Sibéria, há 30 mil anos. Agora, os descendentes dessa planta vão viver nos tempos da engenharia genética, dos edifícios e da internet. Na semana passada, cientistas da Academia de Ciências da Rússia anunciaram que foram capazes de “ressuscitar” o vegetal. A partir da semente congelada a 7 graus negativos, os especialistas, liderados por David Gilichinsky, fizeram florescer diversos outros indivíduos férteis. Até então, o gérmen mais antigo a dar origem à vida, uma palmeira israelense, tinha 2 mil anos.

Stanislav Gubin, um dos pesquisadores envolvidos na experiência, contou ontem à Rádio Voz da Rússia que a semente foi encontrada em pequenas tocas de hibernação de roedores na Sibéria, a 30m de profundidade. “Nesses buracos, os animais guardavam grãos e sementes que consumiam durante o inverno. No total, ali se acumularam de 600 mil a 800 mil gérmens. Lamentavelmente, nem todos eles serviram para os testes, mas nós acabamos por escolher a silene, que era resistente ao frio.”

As plantas ancestrais ressuscitadas pelos russos têm algumas diferenças com relação à Silene stenophylla existente hoje, como o tamanho das pétalas e o sexo de suas flores. Essas ligeiras modificações já são, no entanto, marcas da evolução, segundo Luiz Eduardo Anelli, paleontólogo da Universidade de São Paulo (USP) e autor de Guia completo dos dinossauros brasileiros. “O mundo religioso tem, ainda, muitos problemas em aceitar a evolução – e seu principal argumento é de que não conseguimos vê-la operar. Mas ela funciona como o ponteiro das horas de um relógio: sua ação é tão lenta que sequer percebemos que ocorre, mas se olharmos com um intervalo suficiente vamos notá-la. A Silene stenophylla nos mostra as marcas do tempo e da seleção natural.”

O experimento foi recebido com otimismo pelo mundo científico, que nutriu, mais uma vez, as esperanças de recuperar espécies extintas. “Os cientistas concluíram que o gelo ancestral do Ártico funciona como um ‘museu de gelo do DNA’. Nós encontramos uma preservação similar com bactérias nessas placas, mas fazer brotar uma flor a partir de sementes congeladas por 30 mil anos é absolutamente fantástico”, comenta John Priscu, pesquisador da Universidade Estadual de Montana, nos Estados Unidos. “Quando nos dermos conta, estaremos ressuscitando dinossauros”, graceja.

Perspectivas 

A brincadeira de Priscu não é, contudo, completamente infundada. Pelos, ossos e tecidos de mamutes (com até 50 mil anos) já foram encontrados no gelo do Ártico, com uma preservação surpreendente. Existem muitos cientistas que estão animados com a perspectiva de fazer por esses animais o mesmo que fizeram pela Silene stenoplylla, produzindo clones a partir de seu material genético. “Como os mamutes, há dezenas de outros animais extintos pelo homem moderno. Trazê-los de volta à vida seria uma ótima maneira de redimir os seres humanos”, defende Anelli.

Alguns, mais animados, já pretendem garantir o futuro, congelando seu entes queridos para os tempos em que a ressurreição for possível. É o caso da Sociedade Americana Cryonics, especializada na preservação de corpos de recém-falecidos. A expectativa é poder, um dia, fazer essas pessoas renascerem, talvez em um mundo talvez dominado por uma engenharia genética ultra-avançada, prédios flutuantes e transmissão de informações por pensamento.

Fonte: Estado de Minas
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