quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A fonte do envelhecimento



Por Fernando Reinach (Biólogo) - O Estado de S.Paulo

Juventude eterna. Quem não quer? Truques para retardar o envelhecimento habitam diferentes mitologias e se espalham por jornais e revistas. Charlatães vendem todo tipo de milagre. Agora, por meio de um experimento engenhoso, cientistas resolveram investigar se existia algo no sangue de animais jovens capaz de retardar o envelhecimento de animais idosos. O resultado surpreendeu: descobriram que nos sangue de idosos existem moléculas capazes de acelerar o envelhecimento dos jovens.

O nome é difícil, parabiose heterocrônica, mas o experimento é simples. Você já deve ter ouvido falar de gêmeos xifópagos, que nascem ligados - por um pedaço de pele (o que é fácil de resolver) ou podem compartilhar um ou mais órgãos (o que dificulta ou impede a separação). Em alguns casos, cada um possui todos os órgãos, mas seu sistema sanguíneo é interligado. Os órgãos de cada um deles são irrigados por uma mistura do sangue dos dois.

Os cientistas ligaram pares de camundongos, produzindo xifópagos artificiais. A operação foi feita de modo que somente o sistema sanguíneo deles fosse interligado. Construíram três tipos de pares, um com animais jovens, outro com velhos e um terceiro com um jovem e um velho. Os pares de mesma idade (homocrônicos) serviram como controle. O interessante foi investigar o que ocorria com o par de idades diferentes (heterocrônicos). O fato de o animal mais velho ter seus órgãos irrigados com o sangue do mais novo retardaria seu envelhecimento? Ou o animal mais novo envelheceria mais rapidamente?

Os cientistas investigaram o que acontecia no cérebro deles. Durante o envelhecimento cerebral, tanto em camundongos quanto em humanos, a formação e a regeneração de neurônios ocorrem mais lentamente. Essa mudança no cérebro está correlacionada à perda da memória, maior dificuldade de se localizar, e de aprendizado.

Examinando os camundongos que passaram parte de sua vida compartilhando o sangue de camundongos de outra idade e comparando seus cérebros com camundongos dos grupos controle, os cientistas puderam analisar o processo de envelhecimento cerebral.

Camundongos velhos cujos cérebros haviam sido irrigados por sangue de jovens envelheciam na mesma velocidade que os velhos irrigados com sangue de velhos. O mais espantoso ocorreu com o cérebro de jovens irrigados com sangue de velhos. Esses camundongos envelheceram mais rapidamente, perdendo a capacidade de regenerar neurônios e aprender novos truques com velocidade maior que jovens ligados a um outro jovem. O processo de envelhecimento havia sido acelerado.

Esse resultado demonstra que há no sangue de camundongos idosos moléculas capazes de acelerar o envelhecimento. Em uma série de experimentos sofisticados, os cientistas isolaram a molécula presente no sangue dos camundongos velhos que induzia o envelhecimento. Ela já era conhecida, chamada chemocina CCL11 (também chamada de eotaxin). Em um experimento definitivo, os cientistas conseguiram aumentar a quantidade de CCL11 sintetizada em animais jovens, que rapidamente perderam a capacidade de regenerar seus neurônios e mostraram todos os sintomas de envelhecimento precoce.

Essa descoberta mostra que pelo menos parte do envelhecimento cerebral se deve a fatores no sangue (semelhantes a hormônios) capazes de controlar o que ocorre com as células do cérebro. Não foi dessa vez que a humanidade descobriu a fonte da juventude, mas temos algo que se parece com a fonte do envelhecimento.
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