segunda-feira, 24 de maio de 2010

Avanço genético pode valer US$ 1 trilhão


Foi um sonho que começou há quase 15 anos, quando Craig Venter, um veterano do Vietnã que se tornou geneticista, resolveu criar um genoma do início - e, com isso, fazer a primeira forma de vida sintética. Na quinta-feira, em um anúncio que levou alguns a acusá-lo de brincar de Deus, Venter disse que o sonho tinha virado realidade: ele havia criado um organismo com DNA fabricado pelo homem.

O feito, aclamado como um avanço científico sem paralelos por uns e recebido como um acontecimento alarmante por outros, foi realizado por cientistas no Instituto J. Craig Venter, em Maryland, utilizando pouco mais que um computador, alguns micróbios comuns, um sintetizador de DNA e quatro garrafas de produtos químicos.

O resultado - após US$ 40 milhões e mais de uma década - é o primeiro micróbio que cresce e se reproduz com apenas um genoma sintético para guiá-lo. Cada "letra" de seu código genético foi feita em laboratório e costurada, formando um cromossomo artificial. Apesar da escala do feito, o organismo em questão não poderia ser mais humilde: é baseado em uma bactéria que causa mastite (inflamação das mamas) em cabras.

Enquanto cientistas e filósofos debatem as potenciais consequências e implicações morais do trabalho, a força que motiva Venter é comercial. Sua equipe tem um sonho mais ambicioso: criar organismos que não são apenas novos, mas lucrativos. Venter garantiu um acordo com a petrolífera ExxonMobil para criar algas que podem absorver CO2 da atmosfera e convertê-lo em combustível - uma inovação que ele acredita valer mais que US$ 1 trilhão.

A nova bactéria, diz Venter, é "a prova do conceito de que podemos fazer, em teoria, mudanças por todo o genoma de um organismo, adicionar novas funções, eliminar as que não queremos e criar novos organismos industriais que fariam o que quiséssemos. Até que esse experimento funcionasse, o campo era teórico. Agora, é real."

Novo programa. "É bem impressionante quando você apenas substitui o programa de DNA na célula. A célula instantaneamente começa a rodar o novo programa, começando a produzir um conjunto totalmente diferente de proteínas e, em um curto espaço de tempo, todas as características da primeira espécie desaparecem e uma nova espécie emerge", explica Venter.

Venter chama o organismo de "célula sintética" porque ele sobrevive graças a um genoma criado pelo homem. Mas, com exceção das marcas d"água costuradas em DNA, ela se comporta como qualquer outra M. mycoides. Alguns cientistas argumentam que não se trata de uma nova forma de vida, mas outros dizem que isso não diminui o feito. "É um avanço memorável", disse Paul Freemont, um biólogo do Imperial College de Londres. "As aplicações que essa tecnologia permite são enormes."

Mas o trabalho motivou críticas imediatas de outros, que temem que ele provoque um desastre ambiental ou dê a terroristas a possibilidade de criar armas bacteriológicas. "Trata-se de um passo em direção a algo muito mais controverso: a criação de seres vivos com capacidades e naturezas que nunca poderiam ter se desenvolvido naturalmente", disse Julian Savulsescu, especialista em ética da Universidade de Oxford. "O potencial está no futuro distante, mas é real e significativo: lidando com poluição, novas fontes de energia, novas formas de comunicação. Mas os riscos também são inéditos. Esses organismos poderiam ser usados para criar armas biológicas inimagináveis."

Pat Mooney, do grupo ETC, que se opõe à biologia sintética, disse: "Isso é uma caixa de Pandora. Como dividir o átomo ou clonar a Dolly. Ainda teremos de lidar com as consequências dessa experiência alarmante."

Venter concorda que regulamentos severos são necessários para assegurar que os organismos sintéticos não escapem e causem danos. "É claro que essa tecnologia tem dois gumes e isso requer uma responsabilidade imensa de quem a usa", disse. "Nos estamos entrando em uma nova era estimulante, na qual estamos limitados principalmente pela nossa imaginação."

E se o micróbio escapasse do laboratório de Venter? "Ele não vai crescer fora do laboratório, a menos que seja deliberadamente injetado ou borrifado em cabras. E não trabalhamos com cabras."

Fonte: Estadão

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